Ajuda canina: cães treinados agindo pela sociedade

 Muito além das quatro patas, esses cachorros auxiliam pessoas em hospitais, tragédias naturais e até farejando drogas e armas

Também conhecidos como os melhores amigos do homem, os cães estão presentes na sociedade há mais de 15 mil anos, quando começavam a ser domesticados e apresentavam claros indícios de que poderiam fazer parte do cotidiano humano. Antes com suas funções bem definidas, como auxílio na caça, vigiar espaços e ajudar na agricultura, a sociedade contemporânea criou novos e fortes laços com os cachorros, que passam a ser considerados membros permanentes em muitas famílias no Brasil e no mundo.

Essa forma de tratamento com os cães-pet e toda a influência que ela gera se traduz em tendência de afastar os animais das suas funções de origem. Entretanto, muitos cães ainda agem ativamente em prol da sociedade fazendo funções diversas que exigem treinamento, inteligência e total concentração nos seus sentidos caninos que são o seu diferencial, fazendo com que apenas um cão tenha a capacidade de executar o trabalho equivalente ao de vários seres humanos.

Cães a serviço da lei

Certamente você já viu policiais em ação acompanhados de cães, seja em um estádio de futebol, local com grandes aglomerações ou até em operações com finalidade de encontrar e apreender drogas. Mas já se perguntou como eles são treinados, o que comem ou como são escolhidos? O BAC (Batalhão de Ações com Cães), localizado no bairro de Olaria, no Rio de Janeiro é o batalhão responsável por formar, cuidar e abrigar todos os cães-policiais do estado.

Os animais, em sua maioria das raças labrador e pastores alemão e belga, chegam ao batalhão ainda filhotes, por meio de doações, aquisição ou em ninhadas dos próprios cães policiais. Após a avaliação de diversos profissionais da área, começam a passar por testes e treinamentos diários para definir as suas aptidões e permitir que os adestradores possam traçar a personalidade do cão, não podendo ser muito nervoso e ter a facilidade de processar e obedecer comandos. “Os cães na polícia são divididos em cães farejadores, de choque e de captura e cada um é treinado e direcionado para as suas funções de destaque desde o nascimento”, complementa o Major Aguiar, responsável pelos treinamentos no BAC.

   Alimentados apenas com ração super premium, a única capaz de suprir as suas altas necessidades, os 75 cachorros que atualmente se encontram sempre prontos e alertas em Olaria são ferramentas importantíssimas em uma cidade como o Rio e a sua eficácia é comprovada e reconhecida internacionalmente pela sua excelência. “O terreno é o mais acidentado possível e ao entrar em uma comunidade, os cães não podem se assustar, sejam com crianças, uma bola ou até mesmo tiros, o cão deve estar sempre sereno e preparado para as situações adversas” explica o Tenente Felipe Rodrigues. Mesmo em meios inóspitos, os cães do BAC acumulam operações de sucesso com grandes apreensões de armas, munição e toneladas de drogas. A eficiência do batalhão é tanta que hoje é complicado atender à todas as demandas existentes na região metropolitana e já existem projetos de criação de unidades de treinamento e ações com cães em cidades no interior do estado, como Macaé, por exemplo, onde um canil totalmente funcional deve ser construído até dezembro para atender a região dos lagos e o norte fluminense.

 

Ao resgate!

Não menos heróis, os cães do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro atuam nas mais diversas tragédias e operações de socorro como nenhum humano seria capaz. Com uma capacidade extraordinária de farejar e diferenciar os aromas, o canil do 2º GSFMA (Grupamento de Socorro Florestal e Meio Ambiente), localizado no município de Magé, supre uma demanda que rompe os limites estaduais, enviando cães para diversas localidades nacionais, e até internacionais, como já foi o caso de Israel.

Os cachorros são treinados no próprio grupamento desde muito novos, sempre buscando uma boa linhagem genética, o que aumenta as chances de formar um companheiro perfeito para o humano durante esses momentos tão difíceis. Os 13 animais do grupamento também recebem uma assistência veterinária integral e são considerados atletas, exigindo assim uma alimentação balanceada e específica. “Utilizamos a mesma ração de alta qualidade para todos, mas após uma missão são adicionados componentes de recuperação muscular para cães que chegam a ficar 3 dias seguidos em campo, tudo depende da carga de trabalho do animal.”, informa a primeiro-tenente Fabiana Cristina, responsável pela parte veterinária do 2º GSFMA.

Após todo o processo de adestramento do cão, nos bombeiros eles são divididos em categorias como salvamento, faro e até cinoterapia, que consiste no auxílio de doentes e deficientes nos hospitais, o que requer um treinamento completamente diferenciado. Alterando um pouco a sua função em relação aos cães do BAC, os bombeiros treinam os seus animais não para buscar drogas, mas sim para identificar odores humanos e dessa forma auxiliar em buscas, diferenciando até se é um corpo ou uma pessoa esperando por resgate.

Essas habilidades foram muito úteis após o rompimento da barragem em Brumadinho, Minas Gerais, uma das maiores tragédias do nosso país, ocorrida em janeiro deste ano. O segundo-tenente William José Pellerano, que foi enviado com os cães do grupamento até o local garante que um cão, nessas situações, pode render em serviço o equivalente há dezenas de seres humanos. “Os cães têm um papel fundamental nesse tipo de cenário. Em uma extensão enorme e devastada, o animal é capaz, através do seu olfato, de delimitar um setor onde possivelmente pode estar um corpo soterrado, reduzindo uma imensidão à algumas áreas específicas” explica o segundo-tenente.  Nessa operação tão marcante, dois cães foram enviados e os seus esforços encontraram oito corpos em meio à destruição, além de mais de 50 pontos com possíveis fragmentos. É o melhor amigo do homem provando a sua lealdade até nos piores terrenos e mostrando incansavelmente o seu lado mais heroico.

Talvez não tão badalados, mas não menos importantes são os cachorros treinados usados na área da saúde, estratégia cada vez mais utilizada que comprovadamente pode auxiliar uma pessoa adoecida de diversas formas, agindo no seu humor, recuperando a auto-estima e até mesmo impactando positivamente em quadros de depressão, ansiedade, autismo e casos oncológicos. O projeto Pêlo Próximo é uma associação sem fins lucrativos que realiza desde 2010 terapias, atividades e educação assistida com animais em hospitais, asilos e instituições sendo inclusive o único projeto de pet terapia que funciona em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde e leva os cães até os hospitais públicos do Rio.

As atividades do projeto também são diferentes conforme o local da visita. Em hospitais, e principalmente com crianças, são simuladas no animal situações de internação como acessos, exames de sangue e operações mais invasivas, tudo isso de forma lúdica, em auxílio com a equipe médica, auxiliando na humanização dos hospitais. Já em asilos, os cães atendem normalmente de 15 a 20 pessoas por visita, com atividades que incentivem o trabalho em equipe, a interação e a coletividade, além de também estimular melhoras na fisioterapia a partir de movimentos específicos de carinho no cachorro que incentivam a parte motora e cognitiva do idoso, sem falar dos ganhos em áreas como auto-estima e leveza em ambientes como as casas de repouso.

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