Páginas que transbordam esperança

Revista produzida e vendida por detentos é a ponte para a ressocialização

Para quem conhece a geografia da cidade do Rio de Janeiro, o trajeto de Benfica até o Largo do Machado, diariamente, pode parecer exaustivo. Mas não para Luciano, que encara essa rotina com prazer para realizar seu trabalho. Ele é um dos milhares de apenados em regime aberto que buscam diariamente se reintegrar à sociedade. Luciano precisou enfrentar um processo de ressocialização, que no Brasil, ainda carece de atenção por parte das autoridades. Apesar das dificuldades, uma saída pouco usual trouxe a esperança de volta aos pensamentos dele e de muitas outras pessoas em situação marginalizada. Hoje, Luciano pode dizer que é um vendedor  dos bons.

A luz no fim do túnel veio de forma palpável. Constituída de papel, palavras e ideias. A Revista Cabrini surgiu como um meio de auxiliar financeiramente e socialmente aqueles que buscam sua redenção. “Inspirada em publicações do mesmo cunho, como a Revista Ocas em São Paulo, a ideia foi criar uma produção feita por voluntários e com baixo custo, permitindo que essas pessoas deixem de pedir dinheiro e passem a vender de fato um produto” explica Eduardo Caon, diretor de comunicação da Fundação Santa Cabrini e um dos idealizadores da iniciativa.

Indo para a sua segunda edição, a revista é supervisionada pela jornalista responsável Priscilla Lamy. Produzida por jornalistas voluntários, detentos e egressos, ela é disponibilizada em kits de 10 unidades, com cada exemplar sendo comercializado no valor de R$5. Além de cobrir gastos de alimentação e deslocamento até a fundação, localizada no Largo do Machado, a iniciativa estimula a interação dessas pessoas com os seus possíveis clientes. Dessa forma, cria-se um rompimento de receios e inseguranças de indivíduos que passaram tanto tempo sem contato com a sociedade.

O valor integral de cada exemplar é revertido para o próprio detento e isso permite que pessoas como Luciano possam inclusive fazer planos e economizar para o futuro. “É uma forma de eu tomar o meu café,  almoçar, pagar a minha passagem e ainda sobra um dinheiro para mim. Eu quero gastar só para as minhas necessidades. A minha pena uma hora vai acabar e eu terei que seguir o meu caminho. Esse dinheiro pode trazer algo de bom para mim no futuro”, conta Luciano orgulhoso.  Além do aspecto financeiro, ele ganhou um outro estímulo: foi eleito o maior vendedor do mês de julho. Ultrapassou a marca dos 60 exemplares.

O trabalho remunerado é importante para a ressocialização do apenado, mas não é só isso. Engana-se quem pensa que esse é o maior benefício oferecido pela Revista Cabrini. A necessidade de lidar com o público faz com que os detentos percam o medo e voltem a conversar. Dessa forma, são reconhecidos pelas suas qualidades, dedicação e não mais por um passado que os condenou.

Ariana é mais um exemplo de pessoa que se beneficiou da posição de vendedora e rompeu com a timidez e a insegurança. Hoje, vê o projeto como determinante na sua vida. “Eu conheci a revista e perdi um pouco da minha vergonha. Amei vender e ter contato com as pessoas. Não ser mais julgada depois de muito tempo é um sonho se realizando e isso tudo me mostrou que é possível se regenerar”, comemora Ariana.

A palavra que permeia todo o projeto sem dúvidas é esperança. A Fundação Santa Cabrini está de portas abertas e acolhe os detentos desde 1977. O cadastro pode ser feito apenas com documentação básica e, a partir daí, os kits já podem ser recebidos. É o caso da Angélica, moradora de Nova Iguaçu, RJ, que recentemente soube da iniciativa e já pode vislumbrar independência e dignidade para o futuro.  “Eu vejo essa revista como uma mão estendida para quem realmente quer ser ressocializado, mudar de vida. Começar com o dinheiro da passagem, depois um trabalho de carteira assinada. Com o interesse de crescer financeiramente, eu posso até terminar os meus estudos e mostrar que a minha vida não acabou no meu delito”, expõe Angélica, com as suas primeiras 10 revistas já em mãos.

A produção impressa de qualidade, com matérias, entrevistas exclusivas e nomes renomados como Paulinho da Viola, auxilia o processo de venda e garante  credibilidade ao produto. A segunda edição da Revista Cabrini conta com uma entrevista exclusiva do ilustre cartunista Mauricio de Sousa, que, aos 83 anos, estará preenchendo a capa da publicação. O sucesso de venda da primeira edição, que também esteve presente na Bienal do Livro de 2019, é um grande estímulo para manter a motivação de todos os envolvidos no projeto.

“Até inglês eu já falei, agora eu decidi que no tempo vago vou ler e estimular o cérebro, evoluir, colocar novas ideias na cabeça”, planeja Luciano. Eles inclusive já vislumbram dar palestras contando suas experiências. Pouco a pouco, os apenados da Fundação Santa Cabrini conseguem enxergar páginas mais coloridas em seu futuro.

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