A cultura de muitos Brasis

Aldeias indígenas mantêm costumes e raízes no Rio de Janeiro

Com a mata rodeando a larga estrada de terra, é quase impossível ver o rio paralelo a ela, responsável por comportar a biodiversidade composta de peixes e garças, que habitam nas suas margens. Seguindo o caminho, numa pequena curva à direita, o tímido portão de madeira revela a placa da aldeia Tekoa Ka’guy Ovy Porã ou Mata Verde Bonita, em português, espaço do município de Maricá que abriga um dos povos tradicionais do Rio de Janeiro. Em um descampado aberto e cercado de ocas, a exposição ao público de fora poderia ser grande, mas se concentram ali indígenas que conseguiram manter a sua cultura durante anos desta forma: reunidos em uma roda de conversa sutil, falando o idioma que só eles podem compreender. Assim como ela, a aldeia Tekoa Sapukai Bracuí, em Angra dos Reis, resiste há anos de contato com a cultura de fora por meio da manutenção de sua língua e costumes.

O Brasil tem uma tradição de povos indígenas que se dividem em diversas etnias, diferenciadas em termos culturais, religiosos, linguísticos, educacionais e na relação com a natureza. A Fundação Nacional do Índio (Funai) calcula que existam 305 diferentes etnias indígenas espalhadas por todos os estados do país, com cerca de 69 tribos ainda não contatadas. Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que é realizado a cada dez anos, em 2010 os indígenas contabilizavam mais de 817 mil pessoas, somente 0,47% da população brasileira. Entre todos eles, os guaranis foram o maior povo em quantidade e são hoje maioria no estado do Rio de Janeiro. Somente no país, somam 57 mil indivíduos, conforme o IBGE, mas também há guaranis vivendo na Argentina, Bolívia e Paraguai.

No dia 19 de abril, todos os anos, é comemorado o Dia do Índio, momento em que se valoriza a cultura perpetuada por esses povos. Como esses grupos transmitiam seu saber através da palavra falada, pouco restou de documentos que comprovem quais eram as tribos que viviam no Brasil antes da colonização. Entretanto, os mais de vinte idiomas registrados só no Rio de Janeiro – de acordo com estudos de linguistas como o alemão Curt Nimuendaju e o tcheco Cestmir Loukotka – demonstram que os tupinambás, da mesma família linguística que os guaranis, deixaram muitas marcas no estado. A palavra carioca, por exemplo, é de origem tupi-guarani e, assim como ela, existem várias: Guanabara, Niterói, Icaraí, Itacoatiara, Iguaçu, Irajá, Pavuna, Copacabana, Ipanema, Sepetiba, Mangaratiba, Acari, Itaguaí, entre outras. No estado, restam poucas regiões que ainda preservaram aldeias indígenas: Angra dos Reis, Paraty, Itaipuaçu e Maricá, com um total de oito aldeias.

 

Tekoa Ka’guy Ovy Porã: esportes e danças que vêm de berço

Aldeia Mata Verde Bonita promove Jogos Indígenas

Hoje localizada em Maricá, a aldeia guarani Mata Verde Bonita é uma das mais recentes no estado, mas tem origens que remontam há anos de história. Em 2008, o grupo chegou a Camboinhas, Niterói, vindo da aldeia de Paraty Mirim, por considerar os sambaquis de 6 mil anos de idade (cemitérios indígenas) sagrados para sua cultura. Entretanto, em 2013 um incêndio atingiu suas moradias e eles foram obrigados a deixar a área, sendo convidados pela Prefeitura de Maricá a um novo espaço. Os guaranis têm a tradição de mudar-se conforme os anos, não por serem nômades, já que dominam a agricultura, mas por estarem em uma permanente jornada em busca da sua terra sagrada. Apesar disso, conseguem levar consigo a prática cultural por meio de danças, esportes e pela língua. O professor de Antropologia e de História, José Bessa, de 72 anos, explica que eles, especialmente, têm um processo histórico de deslocamento: “Na língua guarani eles se denominam tapé-jara, o que significa caminhante, já que migram na busca da chamada terra sem males ou terra prometida. Ao não encontrar essa terra, creem que não atingiram o agudjé, que é o estado de perfeição, a plenitude. Eles veem a situação como um processo interno de aperfeiçoamento, em que devem ser cada vez mais generosos para chegar lá”, afirma.

Em cada tekoha, que é a morada indígena para os guaranis, há um chefe responsável pela representação do grupo, o cacique. A cacique da tribo de Maricá é Jurema de Oliveira, de 37 anos. Tendo presenciado a mudança da aldeia, vê com bons olhos o novo lar: “Lá era menor, aqui são 93 hectares, então tem mais espaço para as crianças brincarem. Todo mundo chegou e não tinha nada, era só mato. Limpamos e construímos tudo do zero”, relata orgulhosamente. Apesar das dificuldades, eles nunca pararam de manter o contato com suas origens. São cerca de 100 pessoas, de mais de 27 famílias, que têm o guarani como sua primeira língua. Na aldeia de Maricá, além do idioma, os costumes como a religião e a prática de danças foram mantidos intactos. O tangará, que consiste em um canto e uma dança, é parte recorrente do dia a dia da aldeia, sendo ensinado também para grupos turísticos, levados pela Prefeitura de Maricá, de mais de cem pessoas.

Jurema de Oliveira é a cacique da tribo Mata Verde Bonita, em Maricá, e organiza a quarta edição dos Jogos Indígenas

 

O interesse em ensinar quem vem de fora é o que anima Jurema, junto ao seu irmão Darci de Oliveira, de 43 anos, a organizar os Jogos Indígenas, que em 2019 aconteceram entre os dias 18 e 21 de abril. Em sua quarta edição, a competição agrega pessoas de outros estados, chegando a reunir 16 aldeias em 2018 para prática de esportes como corrida com tora, corrida com baracá, cabo de guerra, dança do guerreiro e cantos típicos. Os jogos são abertos ao público e atraem pessoas interessadas em aprender, o que Jurema considera ser de grande importância. Ela conta que mesmo estando perto de uma cidade de brancos, sua vontade é manter a forma de viver e mostrar isso para quem vem de fora: “Existe esse sentimento de que é a nossa raiz. É o que a gente aprende quando criança e leva para vida. O natural para a gente é o guarani. Aprendemos português depois, na escola, com muita dificuldade. É a mesma coisa com as danças e os esportes, é nossa cultura”, explica.

 

Tekoa Sapukai: coral infantil perpetua tradições

 

Aldeia Sapukai mantem tradições seculares

Em Angra dos Reis, a aldeia Tekoa Sapukai, no Bracuí, não é diferente: a manutenção da tradição é um pilar essencial na convivência entre eles e o mundo de fora. Segundo o cacique Domingos Guarani, a tribo tem uma história antiga, mas desde os anos 70 tiveram que se mudar por conta do aumento de pessoas na região: “Precisamos sempre mudar de lugar, ficávamos dois anos em uma região e depois tínhamos que começar tudo de novo. Esse é o trajeto dos guaranis, nos mudamos em busca de um lugar melhor. São mais de 500 anos de contato e nossa cultura só sobrevive porque lutamos muito pelas nossas raízes. Se não fosse esse esforço, ninguém no Brasil falaria mais guarani”, afirma.

A demarcação da terra em Bracuí, a maior da região fluminense, foi registrada e homologada em 1994, oferecendo à aldeia uma área de mais de dois mil hectares, onde atualmente moram 470 pessoas. Uma das formas encontradas para perpetuar o que ainda existe das culturas indígenas é incentivar os jovens a ter esse contato. Lá, o coral infantil cumpre esse papel ao ensinar cântico em guarani a mais de 30 crianças de oito a 14 anos. Domingos opina que tanto os jovens quanto os mais velhos têm uma enorme vontade de manter a tradição viva: “Nós não temos condição de mudar para outra cultura e não tem como dizer que queremos viver na cidade. Para nós é importante manter o nosso jeito de viver. O coral é exemplo disso, já que desde pequenos eles se apresentam com músicas falando nos nomes dos nossos grandes chefes e na história dos nossos antepassados”, conta.

Algemiro da Silva é o professor guarani mais antigo da Aldeia Sapukai, tendo começado a dar aulas no ano de 1993

 

Educação e construção de memória

 

No Bracuí, crianças como Talisson e Samuel têm acesso ao aprendizado de guarani mbya e português

Nas escolas indígenas, o conhecimento é passado para os menores a partir de aulas e vivências que levam em conta práticas e crenças do povo, direito garantido a partir da Constituição de 1988. O professor de antropologia José Bessa, que acompanha o tema da educação há anos, opina que o conhecimento dos povos tradicionais muitas vezes é desprezado pela universidade: “Darcy Ribeiro uma vez disse que o pássaro do conhecimento tem duas asas: uma é a da ciência e a outra é da cultura popular. Para levantar voo, ele tem que bater as duas asas. A sensação que eu tenho, como professor, é que a universidade cai para um lado. O meu papel é continuar batendo a asa da cultura”, defende.

O cacique Domingos, em Bracuí, não discorda: “Nós sempre fomos responsáveis por preservar a natureza brasileira e ter uma relação com ela que nenhum outro povo tem. No nosso ponto de vista, somos os primeiros habitantes do Brasil e isso tem que ser reconhecido. Nossa cultura vai ser mantida e ela tem que ser valorizada”, afirma o líder indígena.

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