50 anos de literatura com Ana Maria Machado

Autora conta sobre títulos marcantes das cinco décadas de sua carreira

Escritora, jornalista, professora, tradutora, acadêmica, pintora, mãe e avó. O currículo extenso de Ana Maria Machado corresponde à grandiosidade da sua obra literária. Carioca da gema, a autora já publicou em mais de 20 idiomas. Criada em meio à contações de histórias e imersa desde pequena nas palavras, Ana Maria aprendeu a usá-las com versatilidade. É considerada pela crítica uma das mais completas escritoras contemporâneas do país. Em 2019, completa meio século de páginas escritas que marcaram a literatura brasileira.

O segredo sempre esteve em suas mãos. Começando a carreira como pintora, Ana formou-se em letras e lecionou em escolas e universidades. Trabalhou como jornalista e passou por grandes veículos do impresso e do rádio. Defendeu sua tese de doutorado sobre Linguística e Semiologia em Paris, orientada pelo filósofo Roland Barthes. E a partir dos anos 70, dedicou-se à produção literária, escrevendo mais de 100 títulos, entre eles livros infantis e romances. Hoje, já são 20 milhões de exemplares vendidos.

A autora contou que o melhor que tirou do jornalismo foi sua habilidade de observar e prestar atenção nas pessoas da maneira mais fiel possível. Observação, memória e imaginação são as três mechas que compõem a trança de uma boa escrita para Ana Maria Machado. “Você tem que observar o mundo”, aconselha, para quem deseja se aventurar escrevendo.

 

O Prelo: Como foi crescer ouvindo histórias contadas? E em que momento você percebeu que ia se tornar uma escritora?

AMM: Eu ouvia história contada oralmente dos meus avós e dos meus pais e depois eu li muito sozinha também. Então, eu tive uma infância muito cercada de histórias e de livros.

Ah, não foi na infância [que decidiu ser escritora]. Foi muito depois. Me preparei para ser professora e fui estudar Letras. Dei aula de português, de literatura e era jornalista ao mesmo tempo. Eu comecei a trabalhar no Correio da Manhã quando era estudante, ainda estava na faculdade. Eu dava aula e trabalhava no jornal. Então as coisas, as duas coisas, sempre foram muito juntas. Eu nunca resolvi que ia ser escritora. Quando me chamaram para a revista Recreio, para experimentar escrever uma história, eles iam fazer uma revista nova e queriam autores que nunca tivessem escrito para criança… Aí eu experimentei escrever as histórias, deu certo. E eu nem sei quando descobri que estava sendo escritora. Foi à medida que eu fui escrevendo, as histórias foram saindo, sendo publicadas. E vendiam bem, faziam sucesso. A revista era semanal, quando as histórias eram minhas ou da Ruth Rocha vendiam mais que as outras. Então, os editores começaram a pedir a nós para fazermos mais histórias. Em pouco tempo, eu estava fazendo uma história por mês para a revista. Então estava virando escritora, mas não foi uma decisão.

 

Primeira década:

O Prelo: Logo na primeira década da sua carreira você publica Recado do nome, tese de doutorado sobre Guimarães Rosa, orientada pelo filósofo Roland Barthes, e Bento que bento é o frade, um dos seus títulos mais marcantes na literatura infantil. Como foi trabalhar a linguagem escrevendo gêneros tão distintos no mesmo período de tempo?

AMM: A  linguagem sempre foi mais importante. Eu continuei escrevendo para criança, porque me interessou explorar essa linguagem. Me interessou trabalhar com uma linguagem oral, familiar, coloquial, de todo dia, cotidiana, brasileira em nível de literatura. Uma coisa que tivesse várias camadas de significados, que pudesse a cada releitura ser redescoberta de um modo diferente, mas que estivesse trabalhando com uma linguagem brasileira.  Sem estar muito próximo ainda de um modelo de linguagem literária e erudita. Os dois livros saíram no mesmo ano: o Bento que Bento é o Frade e O Recado do Nome, que foi minha tese que eu escrevi com o Roland Barthes, que, na verdade, eu escrevi antes que o outro. Então, a ideia de trabalhar com uma linguagem extremamente rigorosa, artificial e quase de jargão de semiótica; e poder, ao mesmo tempo, estar trabalhando com o frescor da língua falada; e fazer literatura com isso, com várias camadas de sentido… Isso me interessou muito e eu quis jogar nas duas posições.

 

O Prelo: Em Menina bonita do laço de fita você trouxe uma personagem negra e a obra foi reconhecida pelo público como exemplo de valorização da diferença. Para você, o escritor possui um papel político ativo na sociedade?

AMM: Eu escrevi em 83, que foi o ano em que minha filha nasceu. Escrevi para ela e seus irmãos. Era uma história interna, de dentro de casa, porque ela era filha de um segundo matrimônio meu. Ela era de outro pai, que não é o mesmo dos dois meninos mais velhos. E o pai dela é mais claro, mais branco, filho de italianos. Então ela nasceu branquela em uma família de morenos e os meninos brincavam com ela: “Como você é tão branquela?”. Eles mesmos brincavam e davam a resposta: “Porque meu irmão jogou talco em mim, mamãe passou açúcar em mim, me esfregaram na pasta de dente, dei uma golfada, tomei muito leite, comi muito arroz”. Enfim, uma série de coisas brancas… Aí eu fui vendo aquela brincadeira. E ela gostava muito dos meninos brincando com ela, ela ria ainda bebê.

Era uma brincadeira doméstica que eu dei um tratamento para uma linguagem narrativa, poética e familiar, para virar essa história. E é muito afetivo. Claro que quando eu transformei essa menina branquinha em uma menina pretinha, foi porque não havia nenhuma heroína nem personagem de história infantil brasileira pretinha. A não ser uma que eu mesma tinha criado na coleção Mico Maneco, que era uma fada, a Fada Joana, uma fada pretinha. Isso foi porque a minha vivência sempre foi no Brasil, cercada de pessoas de todas as cores, e com uma influência enorme de afluência africana e indígena. Nós temos essa mestiçagem em todo lado. E eu quis ter isso, não quis fazer uma apologia de identidades nem essa era uma questão que se colocasse dessa maneira.

Eu não acho que nenhum escritor tem a obrigação de ter um papel político ativo, mas acho que todo cidadão tem. E o escritor é um cidadão. Então acho que, enquanto cidadão, ele tem que se colocar diante das questões históricas do seu tempo, inclusive políticas sociais de todo tipo e é inevitável que isso se reflita na obra que ele escreve, mas não porque ele deva colocar sua obra a serviço de uma opinião que ele tenha. Ele deve colocar sua obra fiel a ele mesmo e, inevitavelmente, vai transparecer tudo o que ele acha. Então é claro que existe isso nesse livro porque eu sou assim, mas não é porque eu acho que ele “tenha quê”.

 

O Prelo: Nos anos 90 você publicou diversos romances e também foi reconhecida pela sua obra e atuação na literatura infantil com os prêmios Machado de Assis (prêmio brasileiro para o conjunto da obra) e Hans Christian Andersen (prêmio internacional de literatura infantojuvenil). Existe algum momento de transição na carreira em que você passa a escrever mais romances?

AMM: Nunca houve isso. Os meus romances eu comecei a publicar na década de 80. Tanto Alice e Ulisses quanto Tropical Sol da Liberdade são de 80. Canteiros de Saturno é de 91, mas foi escrito na década de 80… E eu estreei em 76 com um livro altamente de adultos, que é a tese sobre Guimarães Rosa, feito com Roland Barthes, e o Bento que Bento é o Frade, que é para criança. Eu nunca tive isso de passar de um para o outro, eu sempre fiz as duas coisas juntas. Eu fiz jornalismo e história infantil, fui fazendo as duas coisas juntas.

 

O Prelo: Nos anos 2000 você foi eleita para uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Como foi ter sido a primeira escritora do gênero literário infantil em um ambiente de literatura erudita? Também, são poucas referências femininas na ABL. Como você se sente em ser uma mulher nesse espaço majoritariamente masculino?

AMM: Quando me chamaram, um grupo de acadêmicos me chamou para me candidatar, não se colocou a questão da literatura infantil. Eu já tinha ganho o prêmio Machado de Assis, que não é um prêmio de literatura infantil, é um prêmio de conjunto de obras. Quando eu entrei, a imprensa falou muito nisso, de ser um primeiro autor com a obra marcadamente infantil, porque quis me pôr um carimbo infantil. Mas eu tinha, por exemplo, mais romances publicados do que a Raquel de Queiroz nessa ocasião, e ela já estava aqui. Quer dizer, é muito mais uma visão da mídia sobre mim do que da própria academia. A Academia sempre teve autores que escreveram literatura infantil. Desde Olavo Bilac – um dos grandes sucessos dele foi um livro chamado Poesias Infantis – passando por Viriato Correa, que foi autor de Cazuza, um grande sucesso. Acho que, depois de Monteiro Lobato, foi o maior sucesso infantil da primeira metade do século XX. Mas também é isso, a gente fica prisioneiro de uma imagem que se cria. Eu não tenho dúvida nenhuma e não renego o fato de que eu tenho uma obra infantil muito visível, muito importante para mim e eu tenho o maior respeito por ela. Sei que a Academia reconheceu isso também, mas não foi só. [E sobre ser uma mulher] Ainda são muito poucas mulheres. Na história toda da Academia acho que são sete. Realmente, a gente precisa de mais e eu quero muito que venham mais.

 

O Prelo: Nos anos 2010, você já acumula 20 milhões de exemplares publicados em mais de 20 línguas. Em contrapartida, estamos em um cenário editorial que enfrenta uma crise. Nessa era digital, como você vê o futuro da leitura das crianças e da literatura infantil, que estão muito inseridas nessa mudança?

AMM: Acho que a gente está muito dentro disso para poder ver com clareza para onde isso vai levar. Mas eu não sou catastrofista não, eu não acho que tenha nenhuma ameaça. Não vejo que há uma ameaça à literatura, mas talvez seja uma ameaça a livros-jogos, livros que não permitem novos significados a cada vez que você relê. Se você lê uma, duas, três vezes, e não tem mais graça, esse livro será encostado. Mas um livros que daí a um tempo você lê e descobre alguma coisa, essa história vai continuar, mesmo que ela não seja lida em papel. Ela pode ser lida nas telas. A gente conhece a história de Tróia escrita por Homero, que é do ano 150 a. C. Antes de Cristo! Não existia nem escrita, ou seja, provavelmente a versão que se conhece, que é do séc. II a. C., já tinha 350 anos e hoje estão fazendo filme do Brad Pitt sobre isso contando a mesma história. Tem três best-sellers em inglês atualmente que são recontos da Ilíada e Odisseia… Essa história não morre. Não tem nada a ver com o fato de ter sido escrita em pergaminho, em papiro, em papel, em tela, cantada ao som da lira ou sem papel nenhum. Porque a força do que tem é a força da palavra e essa não acaba. As crianças de hoje têm esse jogo maior da tela, brincam para lá e para cá desde pequenos, mas também estão lendo muito mais. As crianças estão lendo cada vez mais cedo e estão lendo mais do que a geração imediatamente anterior. Então eu não vejo nenhuma crise, é somente uma mudança.

 

O Prelo: E a sua contribuição futura? Você está escrevendo alguma coisa?

AMM: É, eu estou sempre escrevendo. Eu entreguei ao editor e estamos dando forma a um livro de contos para adultos chamado Vestígios, que deve sair ano que vem pela Companhia das Letras. É uma coletânea de uma dúzia de contos, mais ou menos. Estou com dois livros infantis novos que devo entregar para a Editora Moderna ainda esse ano e devem ser publicados ano que vem. Tem alguns recontos, porque eu tenho procurado recontar histórias tradicionais em uma coleção que estou fazendo. São histórias que eu ouvia quando era pequena e gostava muito, que são folclóricas brasileiras ou tradicionais de outras culturas. Também estou trabalhando nelas, talvez para o segundo semestre do ano que vem. Mas estou aí, estou sempre fazendo alguma coisa.

Ping Pong

Autor preferido: Carlos Drummond de Andrade

 Pessoa admirada: Cândido Mariano Rondon.

Um lugar: Uma certa praia.

Um sentimento: Amizade.

 Maior orgulho: Meus filhos e netos.

 Maior dificuldade: Continuar acreditando… Em certas coisas.

 Exílio: Foi uma dor, mas foi um aprendizado.

 Democracia: Continuo acreditando. 

Futuro: Que seja com lucidez!

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