Recomeços frutíferos

Replantando Vida alia reflorestamento a ressocialização de pessoas em cumprimento de pena

Arte por Mariana Bittencourt

Por Ana Luísa Vasconcellos

Possibilidade de recomeço e de impacto positivo. Esse é o objetivo que move a iniciativa Replantando Vida a proporcionar uma mudança social e ambiental, por meio do trabalho de pessoas em ressocialização na produção de mudas destinadas ao reflorestamento da Mata Atlântica. O projeto já contribuiu com a reinclusão social de mais de 3.500 pessoas a partir de um convênio entre a  Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro – CEDAE e a Fundação Santa Cabrini, gestora do trabalho prisional no Estado.

Assim como a Mata Atlântica depende do reflorestamento para se reerguer, os gerenciados da Santa Cabrini encaram a ressocialização como uma oportunidade de driblar o estigma que sofrem quando conquistam a liberdade e, com isso, enfrentam preconceito e muitas portas fechadas. O Brasil ocupa o 3º lugar mundial no ranking de países com maior número de pessoas encarceradas, perdendo somente para Estados Unidos e China, que ocupam, respectivamente, a primeira e a segunda posição, segundo o levantamento World Prision Brief, uma base de dados do Instituto de Pesquisa de Política Criminal da Universidade de Londres.

 

Reflorestamento e ressocialização
A capacidade produtiva do programa é de 1,8 milhão de mudas

 

O número é alto e, apesar disso, o país ainda enfrenta obstáculos no momento de reinserção social de ex-presidiários. De acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), em dezembro de 2019, o número de presos no país atingiu a marca de 748.009 pessoas que, quando livres, enfrentam uma realidade competitiva com poucas possibilidades. O Replantando Vida busca abrir portas a partir da formação técnica e de vagas de trabalho na CEDAE. A iniciativa conta com sete viveiros no Rio de Janeiro e trabalha com 254 espécies nativas da Mata Atlântica. A capacidade produtiva é de 1,8 milhão de mudas por ano, destinadas às demandas de municípios e projetos de reflorestamento.

 Eduardo Vitorino Leitão, de 27 anos, é um dos beneficiados pelo projeto. Em março de 2018, foi selecionado para receber sementes e produzir mudas que são usadas para reerguer a Mata Atlântica. Ele é um dos gerenciados que trocou o ambiente prisional pelo trabalho ambiental e, aos poucos, tomou gosto pelo reflorestamento, uma área que nunca tinha despertado seu interesse. “Comecei a gostar e a entender a importância do plantio, da água, da preservação das nossas árvores e do saneamento”, afirma.

 

História em reconstrução

O caminho que Vitorino trilha no programa tem relação direta com seu objetivo para o futuro. “Mudou minha vida por completo, uma oportunidade me foi dada e eu agarrei. Comecei a ver a vida de outra forma e voltei a estudar. As pessoas me veem como referência de superação e hoje sei que tenho coisas boas para passar para meu filho”, assegura. Neste tempo, já venceu duas etapas: passou do regime fechado à prisão domiciliar e atualmente está em liberdade condicional. Também usufruiu da formação profissional que o Replantando Vida proporciona, fazendo cursos de operador de roçadeira e de retroescavadeira, trabalho em altura, montador de andaimes e, por conta própria, tirou sua carteira de habilitação.

As conquistas foram muitas e Vitorino sonha mais alto: “Quero terminar o Ensino Médio e conseguir uma oportunidade em uma empresa. Depois, penso na faculdade de Engenharia”. O projeto proporciona a possibilidade de sonho e o espaço para mudança.  Esse aspecto gera uma diminuição significativa da taxa de reincidência criminal, apesar da falta de estatísticas a respeito. O assessor chefe de Comunicação da Santa Cabrini, Rafael Santos, relata que o resultado é animador: “A Fundação Santa Cabrini é a prova de que a reinserção social da pessoa apenada é possível e de que o ciclo da criminalidade pode ser sim rompido”, afirma.

Para os beneficiários destinados a trabalhar nas ações ambientais, é oferecido o curso de formação em Agente de Reflorestamento, ministrado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). As atividades ambientais desenvolvidas na CEDAE contemplam diversas áreas de atuação como coleta de sementes, produção das mudas, jardinagem, limpeza e conservação predial. Eles também desenvolvem serviços administrativos, práticas de restauração, atividades de educação ambiental em escolas e a confecção de uniformes da CEDAE na Oficina de Costura Zuzu Angel. Todos os participantes em cumprimento de pena recebem remuneração pelo serviço prestado, auxílio transporte e alimentação, além da redução de um dia de pena a cada três dias trabalhados. 

 

Reflorestamento e ressocialização
Oficina de Costura Zuzu Angel produz os uniformes da CEDAE

 

Mata pede socorro

O bioma que já foi o segundo maior da América do Sul, atrás somente da Amazônia, hoje luta pela sobrevivência. A Mata Atlântica se estendia do Rio Grande do Norte até o Rio Grande do Sul, literalmente de ponta a ponta deste país continental. Hoje, restam apenas 12% de sua área florestal original, se levada em consideração toda sua cobertura, segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica. Ainda segundo dados da ONG divulgados em 2020, o desmatamento do bioma aumentou 30% entre 2018 e 2019. Alan Henrique de Abreu, engenheiro florestal da CEDAE, defende a importância do reflorestamento: “A Mata Atlântica é o bioma mais ameaçado que temos hoje em dia, ela cobria 98% da área no Estado do Rio de Janeiro e hoje sobram cerca de 20%”, explica.

Reflorestamento e ressocialização
Mata Atlântica é o bioma mais ameaçado no Brasil e atualmente conta com apenas 12% de sua cobertura florestal original

A sustentabilidade é um valor importante do Replantando Vida, que reúne esforços para a recuperação de matas ciliares, nascentes, zonas de recarga e bacias hidrográficas, buscando atingir áreas que são essenciais para o volume de água dos corpos hídricos. Visando também a sustentabilidade, o projeto utiliza o lodo do esgoto (resíduo do esgoto recolhido pela própria CEDAE) como substrato para a produção de mudas. O engenheiro florestal faz uma relação entre criminalidade e degradação ambiental. O desmatamento é uma das consequências do processo de crescimento desenfreado das cidades costeiras brasileiras, assim como as altas taxas de criminalidade que surgem com essa urbanização.

Nesse sentido, o Replantando Vida busca solucionar os dois problemas. Abreu confirma que a mudança na vida dos gerenciados a partir das novas perspectivas é notório: “Entrevistar essas pessoas, depois recebê-las aqui fora, poder dar um curso de capacitação e acompanhá-las no dia a dia é realmente impressionante. O mais gratificante é ver como elas vão evoluindo e mudando suas percepções”, conclui.

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