Passeios turísticos gratuitos ganham adeptos entre os cariocas

Como alternativa para driblar a crise, turistas optam por programas sem custos promovidos por empresas e historiadores

O Rio de Janeiro, segundo cartão postal mais visitado do país, recebe mais de um milhão de visitas todos os anos, de acordo com o Ministério do Turismo. A maioria são estrangeiros beneficiados pela valorização do dólar. Contudo, turistas brasileiros atingidos pela recessão também não abrem mão dos momentos de lazer na Cidade Maravilhosa. Para driblar a crise econômica, uma turma bastante animada tem optado por um programa que não gasta nada além das solas dos sapatos: passeios turísticos gratuitos pelo Rio.

Em roteiros guiados pelo historiador Milton Teixeira e pela agência Rio Free Walking Tour, os visitantes vão desde o Centro à Zona Sul carioca. Zona Portuária, Lapa, Santa Teresa e Copacabana costumam ser os locais mais procurados. Além da história dos bairros, os pontos que chamam mais atenção são praias, monumentos, museus e sítios arqueológicos como o Cais do Valongo, a principal porta de entrada de escravos no continente que foi descoberto em 2011 durante obras de revitalização do porto. Em 2017, o local foi reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

Morador da Ilha do Governador, na Zona Norte, o estudante de engenharia ambiental Luiz Felippe Monteiro, de 23 anos, não conhecia parte da história carioca. Em um dos passeios promovidos pela Rio Free Walking Tour, o jovem teve a oportunidade de visitar locais que antes só havia escutado a respeito. “O passeio agregou muito ao meu conhecimento e, o fato de ser gratuito contribuiu muito para que eu participasse. Essa iniciativa é importante em momentos de crise, afinal, a cultura é sempre deixada em segundo plano”, destaca.

A procura pelos passeios também atrai estrangeiros. O francês Jean-Louis Sougné, de 31 anos, faz parte do grupo de mais de 6,5 milhões de turistas que desembarcam anualmente em território nacional. Em sua quarta visita ao Brasil, sendo a primeira vez no estado, Jean descobriu os passeios pela internet. “Escolhi andar pelo Centro e, também, pela Zona Portuária. Os guias são bem interativos, nos permitem tirar todas as dúvidas e traduzem o passeio em outros idiomas”, conta.

Roteiro pelo Centro também atrai turistas interessados pela história da cidade

Os visitantes passam a valorizar mais o patrimônio quando conhecem, acreditam os especialistas. “Muitos têm uma concepção ruim da cidade e acabam se surpreendendo quando a visitam. Um dos pontos-chaves é que, por ser gratuito, as pessoas contribuem com o valor que desejarem, até mesmo porque muitos não possuem tanta condição financeira para arcar com um programa privado”, afirma Erika Valladares, de 38 anos, guia de turismo da agência.

Arquiteto e professor de História, Milton também atua como guia turístico pelo Rio

Professor de História, Milton Teixeira, de 60 anos, é um dos guias que promovem caminhadas culturais. Além de uma agenda própria, realiza mensalmente um passeio com apoio da Rádio Band News FM e costuma reunir centenas de ouvintes interessados na cultura fluminense. “Meu objetivo é levar as pessoas a conhecerem o lugar onde vivem. Você só pode amar aquilo que conhece. Isso estimula as pessoas. Deveria ser uma obrigação da administração pública manter programas desse tipo”, diz.

No último encontro acompanhado pela equipe de reportagem d’ O Prelo, Milton levou cerca de 200 pessoas para percorrerem um trajeto que começou nos Arcos da Lapa, passando pela Escadaria Selarón, pelo Parque das Ruínas, pelas estações do tradicional Bonde de Santa Teresa, entre outros pontos importantes da cidade. Na escadaria, obra do artista chileno Jorge Selarón, os turistas ficaram encantados com o colorido no caminho entre a Rua Joaquim Silva e o Convento de Santa Teresa, que serviu de cenário para clipes de artistas internacionais, propagandas e editoriais de moda.

Aos 35 anos, a empresária Marcela Vasconcellos é participante assídua dos passeios de Milton e enxerga neles uma forma de incentivar o capital cultural da filha Maria Clara, de 12 anos. “O mundo digital está engolindo as crianças e não quero isso para a minha filha. Desejo que ela encontre um equilíbrio, fazendo bom uso da tecnologia, mas visitando museus, lendo livros e adquirindo cultura”, ressalta.

Marcela (de azul) e a filha Maria Clara, acompanhadas de uma amiga, estão sempre presentes nos passeios do professor Milton

Cada um desses passeios é uma experiência enriquecedora que contri-bui para que o passado não caia no esquecimento. “Temos uma cidade linda e cheia de histórias, mas que acabam passando despercebidas por conta da correria no dia a dia. Os passeios podem ser um pouco cansativos fisicamente, mas, diante de tanto conhecimento, isso acaba sendo um fator secundário”, complementa Marcela.

Entre as recomendações para quem deseja realizar os passeios estão o uso de roupas leves e de tênis confortáveis. É importante levar água, sucos e lanches de sua preferência a fim de economizar nos gastos; passar protetor solar e carregar um guarda-chuva para se proteger em caso de chuva ou sol forte, mas, principalmente, saber respeitar a coletividade. Procure manter diálogos em tom cordial para não impedir que os demais ouçam as explicações dos guias. As datas de realização e os trajetos são divulgados pela internet. Não é necessário realizar inscrições ou pagar taxas, basta comparecer ao local com muita disposição, bom humor e vontade de aprender.

Serviço

Rio Free Walking Tour
www.riofreewalkingtour.com
facebook.com/riofreewalkingtour
Tel.: (21) 99587-2804

Professor Milton Teixeira
bandnewsfmrio.band.uol.com.br/colunistas-detalhes/milton-teixeira
Tel.: (21) 99952-2789
E-mail: miltur@gbl.com.br