Tartarugas protegidas em Itaipu

Projeto de pesquisa da UFF monitora espécie aruanã

Grupo de voluntários se despede das tartarugas após mais um dia de monitoramento

Pesar, medir e soltar. Assim começa mais um dia de captura intencional dos pesquisadores do Projeto Aruanã. Os 25 voluntários, entre estudantes, estagiários e pesquisadores, monitoram a população de tartarugas verdes da praia de Itaipu, Região Oceânica de Niterói, RJ. O projeto de pesquisa da Universidade Federal Fluminense é sediado no laboratório de Ecopesca do Departamento de Biologia Marinha e teve início há quase dez anos. É coordenado por Suzana Guimarães, bióloga que ainda estava na graduação quando deu início à pesquisa. Hoje, o projeto Aruanã já acompanha uma população média de 50 animais na região.

Suzana, coordenadora do projeto, mede a carapaça para acompanhar o crescimento da tartaruga

A tartaruga verde ou aruanã, no tupi-guarani, já é famosa entre os banhistas e muito conhecida pelos moradores locais. Em Itaipu, são tantas que as pessoas chegavam a questionar a necessidade da proteção ambiental, conforme explicou Beatriz Gomes, voluntária há cinco anos. Foi nesse contexto que Suzana, já interessada em estudar a espécie, viu a oportunidade de dar início ao projeto. O trabalho consiste em monitorar a população de tartarugas verdes, entender suas interações com o ambiente marítimo e com a comunidade pesqueira. “Vimos que são as mesmas e estão vindo sempre, desde pequenininhas e vão crescendo aqui. Então, as tartarugas são moradoras de Itaipu”, complementou a voluntária.

Beatriz utilizou os dados do projeto em seus trabalhos de graduação e também do mestrado

O projeto começou em 2012, atuando apenas nessa região. Atualmente, trabalha com monitoramento de toda Baía de Guanabara e adjacências.  Em duas temporadas anuais, os voluntários realizam a captura intencional para recolhimento de dados e a soltura acontece no mesmo dia. Eles pesam, medem e coletam amostras. Beatriz explicou que o controle é feito por um lacre cedido pelo Projeto Tamar e segue o padrão nacional. “Trabalhamos com licença, é uma metodologia feita no Brasil”, frisou  a voluntária. Com esse estudo, levantaram os primeiros dados sobre a captura de tartarugas marinhas por meio da pesca de arrasto de fundo industrial no Brasil, além de contribuir com o banco de dados nacional.

O projeto é um dos únicos do país a realizar captura intencional como método de pesquisa

“Essa espécie tem o hábito de escolher um local e ficar residindo por um tempo”, pontuou Suzana. Ela observou que Itaipu é um ambiente favorável para a fase juvenil, faixa etária em que as tartarugas residem na praia. A região de costão e a atividade pesqueira local proporcionam uma fartura de alimentos, ideal para esse período de desenvolvimento, conforme explicou. De acordo com a pesquisadora, as tartarugas “crescem aqui muito mais rápido do que em outras regiões do Atlântico”. A tartaruga Neruda, como foi apelidada pelo projeto, é a maior já monitorada. Sua primeira captura foi em 2011, quando seu casco media 36 cm, e desde então é uma frequentadora assídua do costão. Agora, já chegou aos 92cm de carapaça e pesa 96kg. Na vida adulta, essa espécie pode chegar a até 143cm. Os pesquisadores acreditam que esta seja a última temporada de Neruda, que já está deixando a fase juvenil. Quando atingem certa idade, elas migram para as ilhas oceânicas de Trindade, Reserva Biológica do Atol das Rocas e para o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, regiões de desova do litoral brasileiro.

O monitoramento também possibilitou a detecção de doenças e o impacto da poluição sobre a vida marinha. O lixo é um dos maiores problemas para as tartarugas verdes, que se encontram em status vulnerável no Brasil, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. A doença mais comum na região é a fibropapiloma, caracterizada pela formação de tumores causados por um herpes vírus. Quando isso acontece, a movimentação do animal pode ficar comprometida. “Muito lixo no ambiente gera estresse para a tartaruga e isso abaixa sua imunidade, fazendo com que o vírus se instale mais facilmente e forme os tumores”, explicou Beatriz.

Mauro desenvolveu uma rede especial, feita de seda, para não ferir as tartarugas

A iniciativa é completamente voluntária e não recebe qualquer tipo de ajuda financeira. As tartarugas recebem o cuidado graças à dedicação de voluntários, arrecadações esporádicas e parcerias com a Prefeitura de Niterói e Ongs. O projeto também recebe o apoio fundamental do Mauro, pescador local que trabalha com o grupo desde o início. O processo de monitoramento começa quando ele lança a rede de arrasto. Em um dia de captura, ocorrem três lançamentos. O trabalho árduo é motivo de muito orgulho para o pescador. “Na semana passada, em um dia pegamos 20 [tartarugas]. Foi o recorde! Batemos um recorde de sete anos”, contou. Os pescadores também têm sofrido com os impactos da pesca industrial e da poluição e o projeto foi fundamental para desenvolver essa parceria entre a comunidade local e os pesquisadores. Mauro já contribuiu com diversos projetos de pesquisa e contou que vê muitos benefícios nessa troca.

Além da ação na areia, o projeto Aruanã também atua na conscientização ambiental da comunidade. “A gente veio ampliando os esforços, ampliando as áreas de atuação. Começamos a fazer educação ambiental, montamos uma exposição itinerante,” destacou a coordenadora. Os voluntários do projeto visitam escolas e participam de feiras e eventos para promover a conscientização ambiental da comunidade. “As pessoas prestam atenção”, salientou Beatriz, que vê na educação ambiental uma forma de aproximar a população do fundo do mar e torná-la mais atenta às formas de contribuir. Em espaços em que tartarugas estão tão próximas de nós como em Itaipu, o trabalho de educação ambiental é uma ponte entre o mar e a cidade, para que as espécies possam conviver em harmonia.

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