Lutando por Vidas

Projeto social promove oportunidades por meio das artes marciais

O projeto social começou em 2003 e desde então já mudou a vida de milhares de jovens. O esporte não só traz benefícios ao corpo e à mente, como também é ferramenta primordial no exercício da cidadania. Foi com esse pensamento que o campeão brasileiro de kickboxing em 1998, Jorge Luís Silva de Medeiros, o Jorge Turco, criou em 2003 o projeto Lutando por Vidas. A iniciativa começou com cinco alunos nos fundos de uma igreja em Campo Grande, no Rio de Janeiro, e hoje já soma mais de três mil jovens atendidos no Rio,  Manaus e João Pessoa.

Acostumado a vencer, o professor de kickboxing busca passar aos alunos valores inerentes à luta, como domínio próprio, honra, moral e dignidade. Com foco majoritário em crianças e adolescentes de comunidades do Rio de Janeiro, o projeto tem como objetivo tanto o desenvolvimento de atletas de ponta, quanto o de indivíduos mais responsáveis. “Aprender os princípios da palavra e da luta fazem toda a diferença na vida de um jovem. Muitas vezes, eles chegam sem a figura paterna, uma referência na família, e o projeto se torna o ponto focal”, disse o professor.

No ringue da vida, as artes marciais funcionam como arma de interação social e disciplina. Para atingir esse propósito, os idealizadores do projeto promovem campeonatos com objetivo de envolver as comunidades e os jovens em torno de um só fim: afastá-los da criminalidade. Um desses jovens, o Júlio César Cardoso, conheceu o projeto em 2009, quando ainda trabalhava como cobrador de van. Em seu percurso diário, ele sempre passava em frente à sede do Instituto Lutando por Vidas, até que decidiu um dia participar de um treinamento que mudou sua rotina para sempre. Desde então, Júlio passou a frequentar a academia até se tornar faixa preta em kickboxing, e com isso, teve oportunidade de lecionar a arte marcial em várias academias. “Devo tudo na minha vida ao mestre Jorge, trabalhei em diversas academias do Rio de Janeiro e hoje sou técnico de enfermagem, coordeno uma equipe de enfermeiros numa rede de hospitais enorme, aplicando os conceitos de liderança que aprendi dentro do ringue”, conta o aluno.

Com o intuito de seguir transformando vidas como a do Júlio, o projeto iniciou também uma parceria com o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, em que os jovens passam um dia na sede do tribunal. Nessa ocasião, são ministradas palestras sobre o Poder Judiciário e ocorrem debates acerca de temas do cotidiano. No encontro de 2018, foi apresentado um episódio do seriado mexicano Chaves, no qual o personagem participa de um juri popular. A forma descontraída de ensinar conteúdos sérios fez sucesso entre as crianças. Assim, o encontro combina conhecimento e diversão e se torna inesquecível para os participantes. Os jovens ainda tiveram a oportunidade de conhecer o presidente do Tribunal de Justiça e se encantaram com a beleza do prédio, “Alguns pedem autógrafo, dizem que queriam morar lá. Inclusive, antes da reunião, todos os alunos queriam ser jogadores de futebol, e após o término, diziam querer ser juízes, advogados e promotores. Essa transformação é o que nos motiva a continuar”, conta Jorge.

Além disso, os beneficiados pelo projeto também fazem visitas à Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (EMERJ), e à Polícia Federal. Nesse caso, os responsáveis buscam trazer à tona a importância do estudo, e mostram os caminhos para seguir na carreira. As crianças participam de palestras sobre drogas, sobre a rotina da polícia, conhecem os cães farejadores, e muito mais. “Alguns desses jovens já estão inseridos num contexto onde o crime é presente, então nós buscamos mostrar uma segunda via”, explica Jorge Turco.

Ele também viu a oportunidade de expandir o projeto para dentro dos presídios, e, por meio do futebol, segue mudando vidas. Começou em 2005 com 20 alunos no complexo de Bangu, e hoje já está presente em 16 unidades prisionais. Devido à abrangência do programa, Jorge, em conjunto com a Subsecretaria Adjunta de Tratamento Penitenciário e com o ex-jogador do Santos e do Fluminense, Roberto Brum, decidiu, em 2017, realizar a primeira Taça dos Presídios. A copa teve a participação de mais de 500 detentos, separados em 8 unidades prisionais. De cada time campeão, foram selecionados 2 jogadores para formar um time e, na final, jogar com atletas profissionais. A competição foi um sucesso, tanto no sentido de dar novos passos em direção à ressocialização, quanto no aspecto esportivo. Prova disso são os dois jogadores que, ao final da disputa, foram contratados para o time profissional do Gonçalense Futebol Clube. Um deles foi Jonathan Martins das Neves, de 20 anos, que já havia passado pelas divisões de base de alguns clubes do Rio de Janeiro e recebeu essa segunda chance dentro do presídio. Em regime semiaberto, participou dos treinos e jogos do clube. “A recepção da taça foi ótima, tanto por parte dos detentos, quanto por parte da Secretaria de Administração Penitenciária.

Com isso, nós do projeto mostramos que estamos à disposição dos presos para uma segunda chance, basta querer”, conta o idealizador do evento. Dentro dos presídios, o Lutando por Vidas promove também oficinas de artesanato, chamadas Arte em Liberdade. Com internos à frente do projeto, o tempo ocioso se transforma em quadros, barcos, caravelas, abajures e maquetes que serão expostos em fóruns, igrejas e nas comunidades.

Apostando na inclusão social, Jorge enxerga a arte e o esporte como meios de acesso ao recomeço do convívio social.  Essas ferramentas de transformação, podem até vir a ser fonte de renda no futuro. Desse modo, o projeto Lutando por Vidas (LPV) segue guiando crianças nos caminhos do estudo e do esporte e ressocializando detentos pelo futebol e pela arte.

3 Replies to “Lutando por Vidas”

  1. Vi este Projeto começar e sempre acreditei e estive presente em maior parte do tempo. Hoje estou voltando novamente a fazer parte desta equipe maravilhosa. Pra cima deles…

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