Solidariedade em primeiro lugar

Empreendimentos de diversas áreas se unem e crescem juntos

O dia mal amanhece e Seu Chico já está na praia jogando a rede para pescar. É dessa prática milenar que ele tira o sustento para a família há mais de 40 anos. A pesca artesanal na praia de Itaipu, Niterói, foi passada de pai para filho. Diferentemente da realidade da pesca comercial da atualidade, práticas tradicionais ainda são mantidas e é curioso observar que em um ambiente quase familiar já se identificavam as condições que regem o conceito que hoje é conhecido como Economia Solidária.

Os tradicionais pescadores se encontram devidamente inscritos no Cadastro Nacional de Empreendimentos Solidários (CADSOL). O termo tem ganhado destaque cada vez maior no âmbito comercial e reunido empreendimentos de diferentes áreas. O que se destaca é o coletivo e não o individual, filosofia tradicional inserida no cotidiano dos pescadores de Itaipu, mas hoje é mais importante do que nunca. “Nós sempre trabalhamos aqui com base na união. Um faz a rede, outro monta a estrutura para limpar e vender o peixe fresco, todos ajudam a tirar e colocar os barcos na água” conta Seu Chico, destacando a importância da solidariedade na atividade que é o seu ganha-pão.

Os ideais de cooperação têm atraído olhares do poder público, e com duas novas leis aprovadas, o fomento ganhará um destaque maior com o evento de incentivo à Economia Solidária – o 2° Circuito Fluminense de Ecosol. Com mais pontos de comercialização, os empreendedores de pequeno e médio porte encontram uma saída para driblar a crise. “É muito difícil disputar com as grandes empresas e os equipamentos de ponta. Dessa forma, a Economia Solidária e a coletividade são uma esperança de ganhos financeiros e manutenção da nossa cultura.” explica o pescador, que faz parte de um grupo de mais de 30 mil comerciantes em todo o Brasil. Esses empreendimentos movimentam anualmente cerca de 12 bilhões de reais, gerando renda para mais de dois milhões de pessoas.

Em julho deste ano foi inaugurada, no Centro de Niterói, em parceria com o Fórum Municipal de Economia Solidária, a Casa de Economia Solidária Paul Singer, carinhosamente apelidada de “Casa Azul”. O espaço oferece diversos serviços a quem busca desenvolver seu negócio a partir dos ideais de cooperação propostos. “Preservação do meio ambiente, consumo justo, organização de cooperativas, ou seja, é uma busca por um processo de solidariedade e autogestão do grupo, onde todos participam nas definições do rumo da gestão” pontua Angélica Hullen, coordenadora de economia solidária e gerente de projetos na Casa Azul.

O local faz o cadastramento, leva instrução, organização e inserção dos produtores locais em diversas frentes econômicas. Com isso, permite que pessoas antes desiludidas com as perspectivas para o futuro possam ainda enxergar um caminho. A capacitação por meio de palestras e oficinas, a orientação e os laços estreitados a partir da Casa Azul não são os únicos benefícios para artesãos, cozinheiros, pescadores, produtores de orgânicos e muitos outros grupos que fazem parte do CADSOL. Um dos grandes trunfos dessas pessoas é o acesso a locais específicos onde se montam feiras periódicas, com o objetivo de comercializar os produtos resultantes desses empreendimentos.

Pescadores tradicionais da Praia de Itaipu resistem à pesca industrial

Atualmente, a Casa Paul Singer oferece quatro espaços de comercialização no Circuito Araribóia de Economia Solidária: Campo de São Bento, Museu Arqueológico de Itaipu, Terminal Rodoviário e na Praça Dom Navarro. Esses lugares são apropriados para o público conhecer, fomentar esse tipo de economia e praticar um consumo justo de uma enorme gama de produtos disponíveis.

 

Entre esses ambientes, destaca-se a feira solidária realizada na charmosa Praia de Itaipu, em parceria com o Museu Arqueológico, que acontece todos os sábados, das 7h às 17h. Lá é possível encontrar produtos que englobam grande parte dos segmentos da economia solidária. Pesca, artesanato, moda, gastronomia e alimentos orgânicos são algumas das áreas dos empreendimentos que sempre se fazem presentes na feirinha.

Feira de Economia Solidária na Praia de Itaipu

Essa maneira moderna de pensar e agir de forma cooperativa nas práticas comerciais tem aberto portas para muitas pessoas, como é o caso da artesã Maria de Castro Oliveira, mais conhecida como Jujuca. Após a aposentadoria, ela viu na Economia Solidária uma possibilidade de dedicar mais tempo ao seu artesanato, no qual opta por utilizar majoritariamente tecido. Todos os sábados, ela está presente na feira que acontece no estacionamento do Museu Arqueológico de Itaipu, vendendo seus produtos e ajudando os companheiros que estão no entorno.

Entre diversos fatores, Jujuca ressalta que a solidariedade entre os membros é um atrativo muito grande dessa forma de negócio e pode ser o diferencial que une pessoas de atividades e  lugares tão distintos. “Nós nos apoiamos sempre. Se, por exemplo, da atividade de uma companheira sobram garrafas, ou, se sobram tecidos dos meus artesanatos que podem ser úteis a alguém, imediatamente pensa-se em reaproveitar esses materiais de outras formas dentro do nosso grupo. Se alguém está sem condições de pagar uma barraca, o grupo também vai lá, se une e paga para que todos possam comercializar seus produtos”, conta Jujuca, orgulhosa de estar inserida nesse contexto.

Engana-se quem acredita que a Economia Solidária é restrita às pessoas que buscam continuar trabalhando ou gerar uma renda extra. Vanessa, a Maria Padoca, conta como em dezembro do ano passado decidiu deixar o seu emprego regular para apostar na sua paixão, a panificação. “Em janeiro eu conheci os princípios da Economia Solidária em um congresso na UFF (Universidade Federal Fluminense). Já em fevereiro, fiz o curso e comecei a participar das feiras do circuito. Hoje eu faço parte também de um grupo gestor da gastronomia, que está sendo reativado e irá colaborar positivamente com o movimento” conta Vanessa, que em poucos meses já se sente integrada a essa forma de fazer negócios. Seja pesca, artesanato, gastronomia ou qualquer outra ramificação, é importante pontuar que esses empreendimentos solidários devem, antes de tudo, buscar um crescimento coletivo, em vez de priorizar o lucro, objetivo maior no mercado convencional.

Com pães artesanais, doces e bolos, a Maria Padoca faz sucesso na Feira de Economia Solidária

Em tempos onde a concorrência com grandes empresas se mostra voraz, é nesse grupo solidário que muitos buscam o seu sustento e, além disso, um escape da realidade competitiva do capitalismo. “Aqui nós precisamos nos ajudar se quisermos sobreviver. Capacitamos com palestras sobre o tema para que os pensamentos dos envolvidos estejam sempre alinhados. O crescimento econômico é apenas uma consequência de todos esses princípios, dos locais de comercialização e de facilidades oferecidas aos cadastrados no CADSOL”, finaliza Angélica, reiterando que a Casa de Economia Solidária Paul Singer se encontra de braços abertos ao público interessado, de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h.

Jujuca é artesã e está diretamente envolvida com o desenvolvimento da Economia Solidária em Niterói

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