Filosofia Iorubá: língua, cultura e religião

Alteridade e tradição são traços do idioma afro brasileiro

A linguagem é a origem de uma cultura, a partir da comunicação são construídas tradições, modos de viver e formas de se comportar em sociedade. O Brasil tem o português e libras como línguas oficiais, mas a formação multicultural no território permitiu a entrada de outras línguas na nossa composição étnica. Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contabilizou 274 línguas indígenas, e, de acordo com estudos históricos, esse número já somou mais de 1.000 antes da invasão portuguesa. Essas línguas também compõem a cultura brasileira e, misturadas entre si, produzem a nossa percepção do mundo exterior e de nós mesmos. O iorubá é um dos idiomas mais antigos trazidos pela diáspora dos povos africanos, chegando aqui em meados do século XVI. Na cultura iorubá, a linguagem é predominantemente oral e tem seu passado registrado por meio de mitos, ou seja, histórias que transmitem conhecimento sobre os antepassados, o território e a natureza. 

 

Professor Márcio Jagum

No ano de 2018, foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) a lei que reconhece o idioma como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado. Márcio Jagum, professor e pesquisador do iorubá, fez parte desse processo e também está em busca da sua inclusão no Índice Nacional de Diversidade Linguística. O projeto ainda tramita no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e visa garantir um reconhecimento federal. O professor defende a patrimonialização como forma de resgatar e proteger a herança cultural africana dessa língua, que já é falada no nosso país há cerca de 400 anos e teve grande influência na formação da identidade brasileira.

 

“A gente pode definir o iorubá como cultura, língua e etnia”, resume Márcio. Esse povo de origem milenar tem suas raízes no sudoeste do continente africano, local que atualmente corresponde à Nigéria e parte do Benin. Com cerca de 20 milhões de falantes, o idioma também está presente em outros países como Cuba, Gana e Costa do Marfim. A cultura iorubá chega ao Brasil nos primeiros navios negreiros, com um fluxo migratório maior nos 3° e 4° ciclos da escravidão, conforme explicou o professor. Os iorubás, assim como os bantos, foram grupos étnicos vindos nesse período e contribuíram em diversos aspectos da identidade brasileira, não só na língua, como também na gastronomia e na arte.  O professor Jagum acrescentou que, no território brasileiro, houve influências de línguas africanas e do próprio português. O mesmo aconteceu na Nigéria, que usa uma versão mais atualizada do iorubá e teve influência do inglês, inserido no país durante a colonização britânica.

 

A língua é o ponto de partida para a comunicação entre as pessoas e o entendimento do mundo ao redor. No caso do iorubá, uma particularidade gramatical propõe uma noção de tempo diferente do nosso entendimento. Para nós, o tempo é linear: passado, presente futuro. Estamos condicionados a pensar assim, com início, meio e fim. “Para eles, isso tudo é sincrônico, então, passado, presente e futuro acontecem ao mesmo tempo. Por isso, o envolvimento com os ancestrais e como isso desemboca no idioma”, esclarece Márcio. O que permite essa mudança de percepção é a ausência de tempos verbais na gramática, os verbos são sempre conjugados no infinitivo e é a interação no momento presente que dá a contextualização temporal. “Não é uma linguagem escrita, é uma linguagem sentida”, sugere o pesquisador.

 

Presente no nosso vocabulário em palavras como axé e acarajé, no Brasil é falado o iorubá arcaico, “é como se fosse um português de Camões”, exemplificou Márcio, ao explicar que a língua ficou congelada, uma vez que seu uso é predominantemente nas práticas religiosas do candomblé e umbanda. “A finalidade é sempre transversal, a quem valoriza essa cultura e a quem tem interesse por essa religiosidade”, defendeu o professor. Foi o caso de Jhonny Navega, que aprendeu a língua, motivado pelo interesse religioso, buscando ter mais independência na interpretação dos cantos e mitos. Ele já estuda desde 2015 e, há dois anos, cursa o Programa de Línguas Estrangeiras Modernas (PROLEM), da Universidade Federal Fluminense, uma das poucas instituições que ensinam a língua no Estado do Rio. Jhonny avalia a importância de estudar essas culturas, que não são devidamente valorizadas no currículo escolar. “Passou batido da escola. Teria que ensinar iorubá na escola assim como teria que ensinar o guarani, o tupi-guarani, outros idiomas indígenas”, opina. 

 

O iorubá, assim como outras religiões de matrizes africanas é, até hoje, vítima de preconceito e intolerância, segundo estudiosos linguísticos. Eles defendem que a língua, corresponde à principal etnia na formação da população brasileira, portanto, a ausência de reconhecimento desses povos na história do Brasil e, consequentemente, no currículo escolar, contribuem para fortalecer esse preconceito. “Quanto mais a gente demonstrar na base educacional que as culturas, os idiomas e as práticas religiosas de matrizes africanas são legítimas, fazem parte da liberdade de escolha, e fazem parte inclusive da nossa cultura, mais a gente minimiza o preconceito. Que tem uma conotação não só religiosa mas também racial”, defendeu Márcio Jagum.

 

Orí. a cabeça, é uma divindade na cultura iorubá, de acordo com Márcio

 

“O livro iorubá é a natureza. E onde está esse livro? Está no sol, quando eu olho para o céu,

Professor Bruno Balthazar

quando eu sinto a chuva, quando eu penso nos meus ancestrais” reflete Bruno Balthazar, arte-educador e professor de mitologias afro-brasileiras. Ele acredita que o movimento de tornar a língua um patrimônio cultural é primordial para a valorização e reconhecimento da cultura de nossos ancestrais, que também é nossa. Para ele, não é só uma questão religiosa tornar iorubá patrimônio imaterial.  “Essas ações protegem a nossa cultura, a nossa identidade e garantem o acesso dos descendentes à fonte original”, defende Bruno e complementa: “É importante, como a alma de um povo, isso ser retomado, porque, na verdade, língua é isso, a alma de uma nação.” 

 

Proteger e reconhecer a cultura ancestral é a proposta principal do curso de Mitologias Afro Brasileiras, na programação “Arte em Família”, da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, em que Bruno leciona atrelando o ensinamento da cultura iorubá à expressão artística. Em suas aulas, pais e filhos ouvem sobre mitos ancestrais e produzem arte e música. Os mitos são histórias que explicam o sentido da vida, a origem do mundo e a realidade dos povos ancestrais. E, para o professor, ensinar esse conhecimento é uma maneira de provocar uma transformação. “É curioso uma escola de arte que não pense constantemente sobre a mitologia do seu povo. E quando pensa em mitologia, pensa em mitologia grega, que é algo morto, uma grande inspiração, mas que está morta. E a mitologia iorubá é viva, ela está constantemente sendo revisitada no nosso cotidiano”, contestou Bruno. Luciana e Pedro participaram pela primeira vez do curso, que já acontece há dois anos. “A minha intenção nessa aula hoje era especificamente aprender sobre o tema, que é uma forma de conhecer a nossa origem”, contou a mãe ao mencionar que busca sempre conversar com seu filho sobre a importância histórica da cultura africana. 

 

As crianças foram convidadas a fazer no papel um desenho que representasse o que tinham medo

 

A alteridade é um princípio iorubá, conforme esclareceu Bruno, portanto é uma cultura que prevê a inclusão a partir da prática de olhar para o outro e aceitá-lo, “modificar minha visão para entender quem é o outro”. E ele levanta a importância dessas reflexões sobre o passado como ferramenta de transformação, “a partir do momento em que eu paro para pensar como eu devo ser e estar no mundo, eu estou fazendo filosofia” e completa, “entender como meu avô e meu tataravô enxergavam a vida, isso transforma a nossa mente”. Fazer dessa cultura patrimônio imaterial é também legitimar esses ensinamentos, que são além de fonte de transformação, um lugar de pertencimento de um povo. Um provérbio iorubá diz que “a cabeça faz de um homem um rei”. O acesso a esse conhecimento, como frisou o professor Bruno, permite romper com julgamentos e defender a cultura. 

 

Ao final da atividade, pais e filhos cantaram e tocaram instrumentos com os objetos que pintaram

 

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