Donas da área

A luta das atletas para viver do futebol

Arte por Mariana Bittencourt

 

Por Bruna Rezende Leite com a colaboração de Luis Felipe Granado

Ao falar de futebol, campeão mundial e destaque em números de gols, quantas mulheres vêm à sua cabeça? Mesmo que o Brasil tenha a melhor jogadora de futebol do mundo, o espaço para as atletas na modalidade feminina ainda é muito pequeno no campo, na mídia e na folha de pagamento, que muitas vezes sequer existe. No Brasil, lembra-se mais de Neymar do que de Marta. No mês em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher e celebramos as conquistas do direito feminino, também jogamos luz nos espaços nos quais as mulheres ainda são invisibilizadas.

Era de se esperar que em 2021 a luta pela igualdade de direitos na sociedade já tivesse saído do meio de campo. Contudo, aos 33 anos de democracia, sistema no qual todos deveriam ser tratados igualmente perante a lei, nota-se que a mudança de vida pelo esporte ainda não é para todo mundo. Segundo o relatório sobre o Impacto do Futebol Brasileiro, organizado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e pela Ernest Young (EY), em 2019, dos 11.683 contratos profissionais de futebol no Brasil, apenas 132 eram de atletas mulheres. Em números absolutos, isso significa que das 12.804 jogadoras brasileiras, apenas 1,03% é remunerada.

O Comitê de Fomento ao Futebol Feminino do Rio de Janeiro (CFFF) nasceu para driblar essa situação e virar o jogo. Fundado em 2012, a partir de um grupo de mulheres jogadoras, o comitê já conseguiu a autorização da CBF para que os times das categorias de base participem dos campeonatos da federação e disputem o Campeonato Carioca.

Márcia Bezerra é coordenadora do comitê e ex-jogadora de futebol. Como tantas outras meninas que sonharam em seguir carreira nos campos, Márcia já pôde sentir na pele as consequências da vocação pelo esporte somada à falta de patrocínio. Apesar de ter ingressado na faculdade com uma bolsa de estudos conquistada por meio do esporte, teve que deixar o campo para trabalhar e ajudar a família. “Quando o futebol feminino não é profissionalizado, as mulheres continuam como jogadoras amadoras para sempre. Não existe um sindicato que dê amparo legal para elas. O futebol feminino hoje não gera renda, gera despesa para as atletas”, desabafa Márcia.

Para Ildecir Sias, técnico da seleção feminina da Associação Atlética da Portuguesa, os desafios para o desenvolvimento do futebol feminino começam ainda na infância. “A primeira barreira é que as escolas não desenvolvem as meninas e as incentivam a praticar balé, brincar de boneca e nunca o futebol. Isso acaba implicando em não termos escolas de futebol feminino de base. Sendo assim, quando você vai treinar uma menina que quer ser atleta de futebol, você não a encontra polida, com as informações e desenvolvimento físico que a maioria dos garotos têm na mesma idade. Então, você tem que fazer um trabalho que deveria ter sido feito lá atrás”, explica Ildecir.

 

Impedimentos

E não é só nos investimentos que o Brasil bate na trave. Historicamente, o esporte que é paixão dos brasileiros por muitas vezes foi reservado somente para uma atuação masculina. Em 1941, 20 anos depois da realização do primeiro jogo exclusivamente composto por jogadoras, e no mesmo ano em que pela, primeira vez na história, uma mulher apitou uma partida de futebol, a modalidade foi banida pela ditadura do Estado Novo.

A proibição pelo artigo 54 do Decreto-lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, justificou-se pela “incompatibilidade com a natureza feminina”. Nesse decreto, além do futebol, halterofilismo, lutas e pólo aquático também foram vistos como “impraticáveis” pelas mulheres, com a alegação, segundo uma carta destinada ao então presidente Getúlio Vargas, de que “a mulher não poderá praticar esse esporte violento, sem afetar, seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que dispôs a ser mãe”. Assim, enquanto Garrincha, Di Stéfano, e até mesmo Pelé brilhavam nos gramados, as mulheres não tinham representatividade nos campos.

Como se não bastasse, em 1965 até mesmo a prática recreativa dos desportos tornou-se motivo de prisão. Muitas mulheres foram encarceradas pela ditadura militar, por jogarem futebol em campos de várzea pelo país. 

A situação só melhorou em 1979, com a revogação do decreto-lei, durante a abertura política nacional e o fim da ditadura. Apenas em 1983 a modalidade foi regulamentada e a primeira Copa do Mundo que o Brasil participou com o time feminino, em 1991, só foi acontecer 61 anos após a primeira competição disputada pelo time masculino.

 

Matou no peito e fez “golaço”!

Após anos de repressão e invisibilidade, o gol marcado em fevereiro deste ano não foi impedido. No último dia 26 foi instituída a Lei nº 5.645/2021, que adiciona ao calendário oficial do Estado do Rio de Janeiro o Dia do Futebol Feminino. A data é também uma homenagem ao aniversário da jogadora Marta Vieira da Silva, eleita seis vezes a melhor do mundo e considerada a melhor artilheira da história da Seleção Brasileira.

“Eu lembro de uma olimpíada em que os jogos estavam passando de madrugada e eu havia acionado o despertador para ver a Marta jogando”, lembra Beatriz Werneck, estudante de jornalismo.

A coordenação do Comitê de Fomento ao Futebol Feminino se manifestou nas redes sociais sobre a importância da nova data comemorativa. Afirmou que muitas jovens atletas do futebol se empoderam ao saber que podem e devem ocupar todos os espaços. Tomam consciência de que há uma política pública que luta pelo respeito e igualdade de gênero no esporte.

A lei que estabelece o Dia do Futebol Feminino não é a primeira a fomentar o esporte no estado. Em 2017 foi instituída a Lei nº 7.576, que estabeleceu a política estadual de fomento à modalidade no Rio de Janeiro. Em relato ao CFFF, a deputada estadual enfermeira Rejane, autora das duas leis de incentivo ao esporte, comenta: “Avançamos a partir do momento em que damos visibilidade, implementando políticas públicas capazes de estimular meninas, jovens e mulheres a encontrem no futebol uma nova perspectiva, unindo benefícios à saúde, à socialização e alargando o olhar para um futuro mais promissor, principalmente para aquelas que vivem na periferia.”

 

Craque é quem faz o meio de campo

Se poucas pessoas acompanham as seleções de futebol feminino é provável que o motivo esteja na baixa visibilidade dada às mulheres nesse esporte. Por isso, não basta vencer na arena, é preciso divulgar massivamente as conquistas. E quem chega para fazer esse meio de campo é a página do Instagram Donas da Área (@donasdaarea), cujo objetivo é ampliar o acesso à informação de base sobre futebol e a modalidade feminina.

Lançada no último ano pelas colegas Beatriz Werneck, estudante de jornalismo e Joana Barros, publicitária, a página conta com curiosidades e as últimas notícias do futebol feminino.  Explicações sobre as regras do esporte e entrevistas com jornalistas que cobrem os campeonatos pelo país também fazem parte do conteúdo da rede. Para as fundadoras, é fundamental ter um meio que reúna essas informações com facilidade e simplicidade, de modo que as mulheres não se sintam julgadas.

As criadoras da página afirmam que, para encontrar informações sobre o futebol feminino em um site de notícias, é preciso dedicar muito mais tempo. Segundo elas, a informação nunca está na capa ou no topo da página. “A gente percebe que a pessoa pode sim buscar sobre o tema na internet, mas que os conteúdos são feitos para homens que já entendem muito do assunto. As mulheres ainda não nascem envolvidas nesse meio. Muitas vezes, a mulher que quer entrar no futebol, ou aprender mais sobre o assunto, não sente muita abertura para falar sobre isso com um amigo, pois ele pode vir com deboche ou coisa do tipo”. Nesse sentido, o Donas da Área se constitui como um canal de troca entre mulheres, que se apoderam do futebol para que a modalidade abra ainda mais espaço para elas.

“Já somos grandes, mas precisamos que as pessoas nos vejam”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *