Terapia com cavalos: bem-estar e desenvolvimento

Equoterapia atua no desenvolvimento de pessoas com necessidades especiais e lesões neuromotoras

Arte de capa por Marco Serra

Texto por Ana Luísa Vasconcellos

“A equoterapia mexe com algo tão dentro das entranhas, que aquele aprendizado perdura e, de tijolinho em tijolinho, vai construindo dentro da criança uma memória de coisas boas”, relata Emanuele Rosa, mãe de Cabele Rosa, de sete anos, que buscou a prática com cavalos para proporcionar maior desenvolvimento a seu filho. Calebe é portador da rara síndrome Phelan-McDermid, uma alteração no DNA que causa um transtorno global no desenvolvimento que afeta a condição motora, intelectual e verbal. 

A mãe, que vê na equoterapia como um dos pilares para o bem-estar de seu filho, explica que essa atividade foi responsável por garantir, a curto e longo prazo, um desenvolvimento da motricidade e da cognitividade. A prática é um tipo de equitação terapêutica, que utiliza do movimento do animal para promover reabilitação física ou mental. É a partir de um contato próximo com o cavalo que as crianças conseguem desenvolver equilíbrio, postura, a relação com o ambiente exterior, a sensibilidade sensorial (tátil, visual, auditiva e olfativa) e a coordenação de movimentos entre tronco, membros e visão. 

equoterapia e desenvolvimento
Calebe em sua prática com o cavalo Loveboy

 

No caso de Calebe, o cavalo Loveboy é o que costuma acompanhá-lo na prática: “Amo chegar lá e ver os olhos lindos do Loveboy e a paciência dele. Ele parece estar nos olhando e incentivando: vamos lá, que eu te ajudo!”, conta Emanuele. Até então, os resultados para a questão motora e cognitiva de Calebe são animadores: “Eu vejo nele uma satisfação e uma atenção para estar participando daquilo. O Calebe normalmente não se sente participante do que está acontecendo ao redor dele, mas vejo que com o Loveboy ele está aprendendo. Na questão motora, principalmente, ele está ficando cada vez mais firme”, relata a mãe. 

 

Estímulos psicomotores

A fisioterapeuta Aline Martinsen, que trabalha na equoterapia no Espaço Equilíbrio desde 2008, é a responsável por conduzir o atendimento com o Calebe, seja com o Loveboy ou com outros cavalos treinados para a prática. O cuidado e o afeto são essenciais nesta relação entre praticante, cavalo e terapeuta. Aline é psicóloga, fisioterapeuta, educadora física e psicomotricista, o que a permite utilizar uma abordagem multidisciplinar na prática. Ela ainda afirma que a abordagem da disciplina positiva, que é movida pelo interesse da criança e pelo respeito mútuo, é valorizada na equoterapia, que atua diretamente o Sistema Nervoso Central a partir do movimento do cavalo:

 “O cavalo se desloca em três dimensões: horizontal, vertical e lateral. Nós também! Então quando uma criança com paralisia cerebral ou outras questões neurológicas está no cavalo, o estímulo do cavalo funciona como um simulador do andar. A andadura do cavalo vai dando sinais para o cérebro como se fosse a própria criança fazendo aquele movimento, através da bacia e do cóccix”, relata. 

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Melodia (foto) é um dos cavalos do Espaço Equilíbrio

 

O desenvolvimento sensorial também é parte dessa terapia, que promove estímulos no tripé da integração sensorial, como explica Aline: “Quando a criança está em movimento no cavalo, ela impacta o sistema proprioceptivo, o vestibular e o tátil. Então, o cavalo está atuando nesses três sistemas que vão contribuir para o desenvolvimento de todos os sentidos”. O sistema proprioceptivo permite ao indivíduo perceber a localização e a orientação do corpo no espaço, mantendo o equilíbrio. Já o vestibular, é formado por um conjunto de órgãos do ouvido interno, responsável pela manutenção do equilíbrio a partir de informações como o balanço, a gravidade, a posição do corpo e a distância. 

 

Equoterapia social

Na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o professor José Ricardo Ramos começou, em 2013, uma iniciativa para trabalhar com crianças com necessidades especiais da cidade de Seropédica. O trabalho do professor de Educação Física surgiu em parceria com professores de Psicologia e Zootecnia, montando um projeto de equoterapia social que oferece a prática de forma gratuita. “Começamos a fazer um trabalho de manejo com os animais para deixá-los bem dóceis. Nosso projeto está dentro da escola pública da Universidade Rural, atendendo autistas, deficientes físicos, crianças com deficiência cerebral neurológica”, afirma José Ricardo. 

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Equoterapia social na UFRRJ inclui atividades pedagógicas

 

José Ricardo é atual coordenador da equoterapia na UFRRJ, um projeto de extensão que já completou oito anos e recebe bolsistas da Educação Física, Veterinária, Zootecnia, Pedagogia e Matemática para contribuírem com a iniciativa. Para os futuros profissionais, o cavalo é um agente educacional e terapêutico, tratado pela equipe com respeito: “Ele sente quando cuidam dele e dão carinho. A gente nunca o trata de forma hostil. É sempre com carinho, docilidade, solidariedade. Ele tem que ser bem cuidado, bem tratado e bem conduzido”, defende José Ricardo.

A mudança gerada pela prática nas crianças é perceptível ao professor em diversos momentos da terapia: “A segurança, o domínio corporal, a autoestima… O aluno sente que está conseguindo se equilibrar em cima do cavalo e também tem benefícios psicológicos, existe uma relação afetiva” , relata. As crianças, muitas vezes, chegam na equoterapia com medo de montar no cavalo e a equipe proporciona um trabalho pedagógico com brincadeiras, jogos e atividades lúdicas, até que a criança comece a se relacionar e gostar do cavalo. 

Na Universidade Rural, o trabalho da equoterapia é dividido em fases. Após o primeiro momento de adaptação, começa a Hipoterapia, que envolve uma andadura mais pausada do cavalo. Depois, inicia-se a equoterapia reeducacional, que é o nível intermediário. Para os que estão prontos, há a possibilidade de desenvolver a prática pré-esportiva e até a esportiva, que já é a equitação, com trote ou galope. Atualmente, os profissionais estão esperando a liberação para voltarem à prática presencial. Mesmo durante a pandemia, a equipe se manteve firme no cuidado com os animais e treinamento, além de ter distribuído cestas básicas para as famílias e mantido atividades pedagógicas com as crianças que faziam parte do projeto. 

 

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Prática da Equoterapia na UFRRJ

Psicomotricidade

Na UFRRJ, o projeto separou a equoterapia em fases até chegar na equitação. Já no Espaço Equilíbrio, existem diferentes formas de prática. Aline Martinsen relata que, quando iniciou seu trabalho na área, percebeu que faltava um meio intermediário entre a equitação e a equoterapia, uma vez que a equitação clássica já exige uma maturidade maior por parte das crianças e a equoterapia é utilizada principalmente para crianças com necessidades especiais. 

“As crianças hoje em dia, principalmente na cidade, têm muito menos atividades na natureza e brincadeiras de rua. Me chamou atenção essa questão de como implementar a equitação que ainda não é uma equitação clássica, mas sim uma preparação para que a criança pudesse ter esse desenvolvimento neuropsicomotor. Esse caminho do meio é a equitação psicomotora, que é bastante favorável para as crianças, inclusive pelo olhar da psicologia!”, explica Aline. 

Atualmente, Aline ainda tem o interesse em ensinar o que sabe, por meio de cursos profissionalizantes de equoterapia e de psicomotricidade, incentivando mais profissionais a atuarem nesta terapia. Ela afirma que a equoterapia pode proporcionar muita alegria a partir dessa relação entre a criança e o cavalo: “É lindo ver a criança que tinha medo ganhando a segurança e recebendo os estímulos adequados dentro da possibilidade de cada um. Vamos, aos pouquinhos, desenvolvendo e equalizando essa modulação sensorial. É lindo ver a relação do afeto que isso proporciona”, conclui.

5 Replies to “ Terapia com cavalos: bem-estar e desenvolvimento”

  1. Um belíssimo trabalho. Parabéns a Emanuelle Rosa por sua luta, à psicóloga Aline, e ao coordenador do projeto, professor José Ricardo Ramos, pela iniciativa e perseverança. É a dupla face do amor pela vida: ao ser humano e ao animal.

  2. Parabéns para todos os participantes deste belo trabalho, feitos como este nos levam à acreditar em um Brasil melhor e mais humano e solidário.

  3. Parabéns a todos envolvidos neste projeto tão maravilhoso que atende estas crianças
    Um exemplo a ser seguido em demais Estados e que deveria ser incentivado para que os empresários contribuíssem para abranger cada mais crianças que necessitam deste projeto- equoterapia social
    Projeto como este, deveria ter administrado não somente neste espaço e sim, abranger outras cidades onde para atender a demanda destas crianças

  4. Texto perfeito sou grata por todo o Bem que equoterapia proporcionou ao MEU filho João Gabriel aos 5 anos ingressou na Equoterapia na Universidade Rural e de lá pra cá são enormes os avanços dele PARABÉNS ao professor José Ricardo e todos que se dispõem em fazer este projeto sensacional
    Muito à Agradeçer
    Orgulho pelo AMOR e dedicação de todos
    Grata Angela Santos aqui de Seropédica Universidade Rural

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