Euclides redescoberto

O que a literatura pode nos dizer em tempos de incertezas

Por Luiz Augusto Erthal

“O Brasil sem Euclides hoje ficaria numa situação lamentavelmente deficitária.” A afirmação é do professor Leopoldo Bernucci, titular do Departamento de Espanhol e Português da University of California at Davis e pode ser recebida como um desafogo diante da redescoberta de Euclides da Cunha pelo mercado editorial brasileiro. Autor homenageado na última Festa Literária de Paraty (Flip) – em 2019 -, o escritor de Os Sertões tem recebido nestes dias uma atenção que pouco lhe foi dedicada nos últimos tempos.

Considerado um dos mais importantes pesquisadores da obra euclidiana, Bernucci defende enfaticamente a posição de Euclides da Cunha no cânone literário nacional. “A obra de Euclides sempre permanecerá no centro de atenção dos críticos e dos leitores não especializados também”, argumenta. “A meu ver, isto se deve ao fato de que a alta qualidade dos seus trabalhos (Os sertões e seus instigantes ensaios) coloca os seus textos na categoria dos clássicos; e clássicas são aquelas obras imperecíveis que ao logo dos anos produzem mais e mais leituras. Esta qualidade que somente um número reduzido de obras pode ter é o que as mantém ‘vivas’ e operantes na esfera dos debates que ocorrem e variam de tema durante todas as épocas”, sustenta Bernucci.

Fazendo-lhe coro, o presidente da Academia Brasileira de Letras, Marco Lucchesi, responsável pela curadoria da exposição “Uma poética do espaço brasileiro”, sobre Euclides da Cunha, em 2009, na Biblioteca Nacional, situa o escritor fluminense – natural de Cantagalo –, na literatura brasileira, como “um traço de união entre os tímidos sertões do século 19 e a ousada criação de Guimarães Rosa. A figura de Euclides permanece forte e inabalável. Euclides da Cunha fundou uma poética do ponto de vista de uma literatura social”, define Lucchesi.

 

Tempo de esquecimento

Uma pesquisa realizada há cerca de dez anos por um blog literário revelou um fato que deixou a comunidade euclidianista alarmada: em mais de 50 universidades brasileiras pesquisadas, nenhuma havia indicado obras de Euclides da Cunha como leitura recomendada para o vestibular. O escritor que abrira caminhos para o modernismo e o regionalismo; que descortinara as entranhas de um país até então postado de costas para si mesmo (para usar uma de suas imagens); apontado por muitos críticos como o autor da maior obra literária brasileira – Os Sertões –, traduzida para vários idiomas e até hoje considerada um clássico da literatura universal, estava sendo visivelmente banido das nossas universidades.

Entre as justificativas “politicamente corretas” para esse desapreço acadêmico vieram os alegados aspectos datados e as teorias já superadas presentes na sua obra. Teses como eugenia e determinismo geográfico, defendidas por Euclides da Cunha em Os Sertões, estavam entre as principais justificativas para o distanciamento que lhe era imposto nos campi universitários. O autor permaneceria merecedor de situar-se no cânone literário nacional, mas parte do seu pensamento não seria saudável, hoje, para os estudantes, alegavam os críticos.

Para os euclidianistas, uma verdadeira heresia. Para os estudantes, privados do contato com um dos maiores pensadores e escritores brasileiros, uma punição injustificável. A exclusão da obra de Euclides da Cunha das salas de aula significava privação inversamente proporcional dos estudantes do universo multidisciplinar contido em seu pensamento. Em sua defesa, afinal, pode-se dizer que ele foi um homem do seu tempo e tais teorias, hoje ultrapassadas – mas acatadas àquela época pelos intelectuais de então –, podem ser consideradas já depuradas pela luz do distanciamento histórico e separadas do rico legado de Euclides, este, sim, insuperável.

Para Leopoldo Bernucci, a própria superação de algumas das teorias defendidas por Euclides seria em si mesma uma lição a ser aprendida pelos estudantes de hoje. “Ele nos ensina – afirma Bernucci –, também, com humildade, que muitas vezes as teorias aprendidas nas escolas não correspondem aos fatos quando verificados in situ. Sendo o seu método de análise e pensamento de natureza científica, o que ele oferece aos nossos alunos é a oportunidade de abandonarem o relativismo, a superstição, o misticismo e abraçarem os instrumentos das ciências para pensarem lucidamente o país e o mundo em que vivem”.

Ao mesmo tempo, porém, o professor destaca a capacidade de Euclides de conciliar o método científico com a criatividade artística: “Essa forma analítica não deve invalidar – e isto é preciso se dizer com cuidado – o fato de que como seres humanos, segundo ele, necessitamos exercer a nossa imaginação e deixar-nos muitas vezes guiar pelo lado criativo das artes, fora do âmbito estritamente racional e lógico. O que o escritor busca é um consórcio entre ciência e arte que possa produzir a melhor síntese para todos nós, seres humanos.”

Contudo, as contribuições práticas do estudo de Euclides da Cunha nas escolas não param por aí, na visão de Leopoldo Bernucci. Além do conteúdo histórico da sua obra, ele pode ser usado pelos professores de forma a ajudar os estudantes a desenvolverem o pensamento crítico, baseado na argumentação euclidiana:

“Como um dos nossos primeiros intérpretes, o autor de Os sertões abriu o debate para questões que até então não se discutiam abertamente e com tanta coragem. O isolamento do nordestino do interior e os erros cometidos pelo governo brasileiro em Canudos são dois temas tratados por ele com muita lucidez e clareza. Hoje, mais do que nunca, os nosso alunos, sejam eles do ensino secundário ou superior, precisam desenvolver sua capacidade de pensar criticamente. Isso significa, saber estabelecer analogias e precedentes históricos para poder comparar o objeto estudado com outros semelhantes ao longo da História. Euclides realiza este tipo de análise atualmente tão necessária nas escolas de hoje”, sentencia Bernucci.

 

Tempo de redescoberta

Há dez anos também o culto prestado a Euclides da Cunha – único autor brasileiro celebrado anualmente, de forma ininterrupta, há mais de cem anos, na Semana Euclidiana de São José do Rio Pardo – começou a ser revigorado, em movimento contrário à tentativa de afastá-lo dos bancos escolares. Além da homenagem que lhe é prestada na cidade paulista, onde Euclides escreveu sua obra-prima dentro de uma pequena cabana nos intervalos do trabalho – como engenheiro – de reconstrução de uma ponte ferroviária sobre o rio Pardo, outras iniciativas para reavivar a sua importância na literatura brasileira foram realizadas.

Cantagalo, cidade natal do escritor, na Região Serrana fluminense, sediou em 2009 um importante seminário organizado pelo projeto “100 anos sem Euclides”, coordenado pelos professores Anabelle Loivos (UFRJ) e Luís Fernando Sangenís (UERJ). Leopoldo Bernucci estava lá, assim como outros nomes importantes do euclidianismo contemporâneo, como o tradutor de Os Sertões para o alemão, Bertold Zily; o cineasta Noilton Nunes, diretor do filme “A paz é dourada”; os então presidentes da Academia Brasileira de Letras, Cícero Sandroni, e da Academia Fluminense de Letras, Edmo Rodrigues Lutterbach.

Este ano, além da homenagem da Flip, foi realizado em agosto, no Solar do Jambeiro, em Niterói, por iniciativa também da professora Anabelle Loivos, o Fórum Euclides 110 – sinalizando os 110 anos de morte do escritor –, com uma série de mesas-redondas, debates, apresentações de peças teatrais e lançamentos de livros com temática euclidiana.

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