Saúde mental no esporte

A atuação da psicologia e os desafios da Covid-19 para os atletas brasileiros

Arte da capa por Marco Serra

Por  Júlia Cruz

1950, Maracanã em silêncio. Era o Maracanazo. 1954, queda nas quartas de finais. 1958, campeões mundiais. O segredo da seleção brasileira de futebol para a Copa de 58? Alguns podem dizer: Pelé, mas a psicologia diz: João Carvalhaes.

Apesar de já existirem práticas de psicologia no campo da educação física desde 1930, o trabalho de João Carvalhaes é o ponto de partida da psicologia do esporte no Brasil. Ele era um profissional com experiência em psicometria, área da psicologia especializada na elaboração de testes e avaliações, quando começou a trabalhar com a psicologia do esporte, em 1954. Nesse ano, João usou seus conhecimentos para preparar árbitros da Federação Paulista de Futebol, em seguida foi contratado pelo São Paulo Futebol Clube, onde permaneceu por cerca de 20 anos, e finalmente atuou na Copa do Mundo de 1958. Seu trabalho causou polêmica entre técnicos, jogadores e imprensa por introduzir no Brasil algo até então inédito.

Carvalhaes adaptou a técnica da psicologia do esporte usada no exterior para o cenário brasileiro. Ele utilizou testes de inteligência, personalidade e de habilidades específicas a fim de melhor orientar os atletas para suas atividades. Um dos testes era o PMK (psicodiagnóstico miocinético), uma avaliação psicomotora do controle dos músculos e dos movimentos, que consiste na observação de desenhos para a avaliação de aspectos da personalidade. Após o título mundial, o jogador Nilton Santos disse ao jornal Folha da Manhã que aprendeu com Carvalhaes a entrar em campo sorrindo.

Os resultados no futebol poderiam abrir as portas para a psicologia do esporte no Brasil, mas o caminho não foi tão fácil. A própria psicologia só foi reconhecida no país como profissão em 1962 e a psicologia do esporte foi dada oficialmente como especialidade pelo Conselho Federal de Psicologia em dezembro de 2000.

Até hoje, a psicologia do esporte no Brasil ainda não é unanimidade entre atletas e dirigentes de clubes como uma prática positiva. Os tabus no meio esportivo e a questão econômica das instituições são algumas das barreiras encontradas na área.

Recentemente, nas Olimpíadas de Tóquio, a importância do bem-estar psicológico virou notícia com o caso da atleta estadunidense Simone Biles. Durante os Jogos, o maior nome da competição foi substituído na final geral por equipes da ginástica artística. Com um rendimento abaixo do esperado, Simone desistiu de disputar a final de alguns aparelhos, como o solo e salto sobre a mesa. Segundo Biles, o motivo da desistência foi para priorizar sua saúde mental. A ginasta relata que sofreu “twisties” em suas apresentações, um bloqueio psicológico que dificulta a noção de espaço.

Em sua conta no Instagram, Biles escreveu: “às vezes, sinto como se tivesse o peso do mundo sobre as minhas costas. Faço parecer que a pressão não me afeta, mas é difícil”. Para a  doutora em psicologia social e psicóloga do esporte Adriana Amaral, o ato de Simone Biles demonstra muito autoconhecimento da atleta.

Simone Biles
Simone Biles durante as Olimpíadas de Tóquio 2020. Foto: Lionel Bonaventure – AFP

Sofrer “twisties” aumentam as chances de lesão, uma vez que as referências espaciais se perdem, levando o atleta à desorientação. Juliane Fechio, psicóloga da Confederação Brasileira de Skate e do Santos Futebol Clube, acredita que o medo de lesão é um dos principais causadores de estresse nos atletas. “A lesão tira o atleta do treino, das competições, isso implica em perda de autoconfiança, perda de patrocínio e medo de perder a titularidade”, conta a psicóloga do esporte.

 

Psicologia do esporte no futebol

Mesmo no mais alto nível do esporte, os problemas de reconhecimento da psicologia continuam. Na Copa do Mundo de 1998, o craque da seleção Ronaldo sofreu uma convulsão antes da disputa da final contra a França. O lateral Zé Roberto, que esteve presente na Copa, diz que a convulsão de Ronaldo abalou o emocional da seleção e foi decisivo para a derrota brasileira. Em entrevista para o site Onefootball, ele conta: “Ronaldo era o cara do time, o melhor do mundo. Quando ele tem a convulsão e todos o veem naquele estado de choque e, quando ele volta, volta falando que queria jogar, todo mundo se espantou”.

 O amparo psicológico aos atletas se fez cada vez mais necessário. Na Copa do Mundo de 2014, a seleção brasileira teve uma consulta psicológica depois de um jogo difícil nas oitavas de final. No confronto, que foi para os pênaltis, o zagueiro Thiago Silva chorou com a possibilidade de eliminação. Depois das cobranças e a vitória do Brasil nesse jogo foi a vez do goleiro Julio César cair em prantos, por alívio da pressão que sofrera. E, na semifinal, o  lendário 7 a 1 contra a Alemanha e ainda, a pressão por jogar em casa, evidenciou o descontrole da seleção brasileira, em contraponto com o psicológico centrado dos alemães.

Saúde mental
O zagueiro David Luiz durante o 7 a 1. Reprodução: Twitter

O psicólogo do esporte Rodrigo Scialfa Falcão adverte que o trabalho da psicologia do esporte deve ser contínuo e leva tempo.

“É preciso conhecer o atleta e ele se autoconhecer para iniciar um trabalho de regulação emocional. E esse não é um processo que dá para fazer em poucas sessões”, alerta Rodrigo.

A seleção da Alemanha, incluindo as seleções de base, tem acompanhamento psicológico com Hans Dieter Hermann, desde 2004. Naquela semifinal contra o Brasil, eles entraram em campo com 10 anos de assistência emocional. Assistiram ao hino nacional brasileiro ser cantado por 60 mil pessoas, ouviram vaias por 10 minutos inteiros, mas mantiveram o foco na partida.

Contudo, o trauma brasileiro não foi suficiente para que a seleção contasse com apoio psicológico profissional no Mundial seguinte. Na Copa de 2018, a delegação viajou para a Rússia sem essa assistência e, mais uma vez, foi eliminada nas quartas de final.

No Brasil, a lei 9.615/1998, conhecida como Lei Pelé, que trata de normas gerais dos esportes, determina que para um clube ser considerado formador de atletas é preciso assegurar alguns direitos para os jovens, entre os quais, assistência psicológica.

No entanto, a lei só se aplica para atletas em formação, não sendo obrigatório para times profissionais; e nenhuma instituição esportiva precisa do Certificado de Clube Formador para trabalhar com atletas da base. O certificado, porém, dá algumas garantias para os jovens e o clube, como exclusividade para assinar o primeiro contrato especial de trabalho e o direito de indenização do atleta, caso não o queiram mais no clube.

 

Atuação da psicologia do esporte

Além do medo de lesões, a pressão por resultados é uma das principais causas de descontrole emocional dos atletas, assim como estresse, ansiedade, autoestima e traços de personalidade, segundo as doutoras em psicologia Gisele Maria da Silva e Tatiana de Cassia Nakano. As pesquisadoras dizem que o programa de treinamento mental deve envolver 3 etapas: aprender técnicas que melhor atendem às necessidades, integrá-las à rotina de treinamentos e aplicá-las em situação estressante.

Com a ajuda da tecnologia, as técnicas e exercícios de treinamento mental são variados. Além do trabalho verbal entre psicólogo e atleta, também é possível trabalhar com biofeedback, aparelho que ensina os atletas a respirar, buscar autocontrole e equilíbrio; e neurofeedback, aparelho usado para melhorar o foco, atenção e reflexo.

Mas o psicólogo do esporte João Ricardo Cozac resalta que o trabalho verbal também é essencial. Cozac, que é presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, afirma que o exercício tradicional do psicólogo ajuda os atletas a significar seus conflitos, simbolizar suas angústias, dúvidas e inseguranças.

Saúde mental
O psicólogo João Ricardo Cozac dando aula no auditório da Associação Paulista da Psicologia do Esporte.

 

As vantagens para comissão técnica

A psicóloga Adriana Amaral acredita que a psicologia esportiva também deve envolver problemas humanos do atleta, não focando apenas em performance. Para ela, os ideais da psicologia do esporte, como o autoconhecimento, funcionam para todos, incluindo comissão técnica.

O psicólogo também atua como facilitador das relações entre a comissão técnica e os atletas, compreendendo questões do cotidiano, dificuldades, perfis psicológicos e as melhores formas de trabalhar. Um atleta preparado psicologicamente pode ajudar o trabalho da comissão técnica, uma vez que aprende a se comunicar melhor, compreende os aspectos da prática esportiva e apresenta maior resiliência, tornando-se um líder mais eficiente.

Entretanto, Adriana resalva que é impossível garantir o controle emocional de todos, pois a psicologia não é uma ciência exata. Cozac, por exemplo, sustenta que

“a presença do psicólogo não garante a vitória, mas a ausência pode ser determinante para a derrota”.

 

Em tempos de pandemia

A pandemia da Covid-19 impactou a vida de todos. Jamila Perini, doutora em química biológica, tem uma linha de pesquisa envolvendo UEZO, INTO e Fiocruz sobre os impactos da crise sanitária na vida de esportistas, também englobando a saúde mental.

Até o momento, quase 600 atletas brasileiros entre 18 e 45 anos, profissionais ou não, foram consultados. Respondendo a um formulário, eles autorrelataram sintomas de estresse (88,7%), insônia (72,7,%), ansiedade (46,4%) e depressão (27,2%) desde o início da crise sanitária.

Saúde mental
Atletas do Flamengo preenchendo o formulário da pesquisa.

“Independentemente da pandemia, os atletas sofrem. A pandemia só agravou”, afirma a pesquisadora. Jamila conta que a tentativa de adaptação dos atletas ao contexto pandêmico gerou uma série de desequilíbrios emocionais, como a Síndrome de Burnout, em que o atleta chega à exaustão profissional e apresenta sintomas como estresse, cansaço excessivo e sentimentos de incompetência.

Problemas como o isolamento, a adaptação dos treinos, a perda de patrocínio e a carga emocional extra são algumas das questões que afligem os atletas durante a crise sanitária. A pandemia também dificultou a atuação dos psicólogos do esporte, já que o contato e a observação fazem parte do trabalho. Entretanto, no âmbito atual, em tempos de olimpíada em meio à pandemia, o psicólogo do esporte Rodrigo Falcão acredita que o foco em saúde mental evidenciado por tantos atletas pode se tornar um legado olímpico.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *