Lição de Casa – Inclusão na Educação Especial

Benefícios da educação inclusiva para pessoas com deficiência

Por  Fabíola Thereza

Arte da capa por Marco Serra

 

Uma escola realmente inclusiva oferece ao aluno com deficiência o ambiente de acolhimento e respeito, essenciais ao seu desenvolvimento socioemocional.

Com investimentos em adequações físicas, treinamento dos profissionais e planejamento de atividades que alcancem a todos, sem exceção, o ambiente escolar é valorizado e reconhecido por ajudar efetivamente na autonomia dos alunos, segundo diretrizes do Ministério da Educação.

 

Atividades lúdicas para criança PcD

 

Toda essa dinâmica é regida pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei N⁰ 13.146/2015) que, em seu Capítulo IV, prevê o direito à educação, garantindo inclusive a matrícula em salas de aulas regulares com atendimento especializado, assegurando educação de qualidade, e um “sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades, bem como o aprendizado ao longo de toda a vida”, exatamente como versa a lei, sob a tutela do Estado.

O Instituto Municipal Helena Antipoff (IHA), do Rio de Janeiro, é responsável pela implementação das ações da Política Nacional de Educação Especial sob a perspectiva da educação inclusiva no município e oferece qualificação de docentes auxiliando o trabalho de 11 Coordenadorias Regionais de Educação do Rio. Dessa forma, os alunos com deficiência recebem ensino de qualidade e uma vida acadêmica pautada na dignidade e na ausência de barreiras para suas conquistas. O serviço prestado pelo Instituto é uma complementação do ensino regular numa espécie de contraturno, não substituindo a escolarização convencional. A especialização e a qualificação de profissionais para esse universo diversificado com métodos de ensino personalizados são direitos garantidos à Pessoa com Deficiência (PcD) a fim de inseri-la, de forma igualitária, tanto no que se refere à educação, quanto à sociedade de um modo geral.

Segundo dados da Agência Brasil, cerca de 1,2 milhão de pessoas com deficiência ingressaram nas escolas brasileiras em 2018. Ana Luíza da Costa, 40 anos, funcionária da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC) e mãe de Gabriel Muylaert, de 17 anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) relata que, ao matricular seu filho na escola, a psicóloga foi a primeira a sinalizar sobre o transtorno, quando percebeu o isolamento e desinteresse dele nas atividades em sala de aula.

 

Ana Luiza e seu filho Gabriel

 

Ana Luiza lembra que a escola foi acolhedora, apesar da falta de recursos e ferramentas apropriadas à situação. Mesmo com dificuldade na adaptação, Gabriel contou com o apoio moral da escola e da família. A mãe diz que a psicopedagoga a orientou sobre a possibilidade da escola pública ter mais recursos e preparo para lidar com alunos PcD – sugestão avalizada pela servidora. Para ela, todas as instituições de ensino deveriam “abraçar mais, divulgar mais” a causa do deficiente e, assim, oferecer mais incentivo e recursos para estimular a capacitação do corpo docente. Emocionada, Ana Luíza conta que Gabriel, um adolescente obediente, feliz, carinhoso com os colegas e apaixonado por educação física e matemática, a transformou numa pessoa melhor. “Aprendi a ser mais sensível, embora entenda que há muito a aprender sobre a condição do meu filho”.

 

Alzenir Lisboa e sua filha Beatriz

 

Alzenir Lisboa, manicure há 30 anos e mãe de Beatriz, jovem de 21 anos, portadora da Síndrome de Down, diz que sustenta a casa sozinha e não teve apoio psicológico. A trajetória da filha começou desde cedo num projeto chamado Pólo de Bebês, programa pioneiro da Prefeitura do Rio de Janeiro e criado pelo IHA, em 1996, com a finalidade de iniciar a vida escolar na primeira infância do bebê PcD. Segundo a mãe, Beatriz tem dificuldade no aprendizado, mas sabe ler e terminou o Ensino Fundamental aliado a um curso com uma metodologia de ensino que incentiva e dá autonomia ao aluno. A filha passou a ter dificuldade na socialização com colegas maiores e ela acabou não acompanhando as disciplinas, embora tivesse uma professora especializada por duas horas diárias no contraturno. Ainda assim, conta que a filha é independente, faz suas atividades sozinha, e tem o sonho de aprender corte e costura. Alzenir garante que sua filha nunca sofreu ou reclamou de bullying na escola ou no condomínio onde moram, contando sobre a emoção que sentiu quando a viu andar de bicicleta pela primeira vez. Orienta às mães de PcD a nunca desistirem mesmo diante do preconceito e confessa o desejo de que o mundo enxergue Beatriz exatamente como ela, uma pessoa normal.

 

Atividades de desenho em quadro

 

No tocante à educação, essas mães sinalizam a importância da inclusão, interação, acolhimento e mais profissionais especializados dando suporte nas escolas, já que ainda consideram a estrutura oferecida insuficiente.

Em comum, elas têm o desafio de criar seus filhos diante do preconceito e discriminação de uma parcela da sociedade, entretanto, não perdem a esperança diante das dificuldades de socialização. Desejam um mundo acolhedor, com mais informação e aceitação e que a sociedade tenha a oportunidade de conhecer verdadeiramente o quanto seus filhos são carinhosos e inteligentes.

 

A psicopedagoga Viviane Gitahy apoia a formação de profissionais na área inclusiva

 

“O olhar sobre o portador de necessidade especial precisa ser um olhar mais que acolhedor e empático”

“Busquemos olhar essas pessoas que são realmente especiais através da imagem do espelho que apresentam”

Viviane Gitahy

 

Viviane Gitahy, psicopedagoga, servidora da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e 32 anos como diretora de escola e coordenadora pedagógica, pontua que os docentes buscam formação na área inclusiva com seriedade. Ela diz que há nas escolas classes regulares e salas de recursos para atender às necessidades de seus alunos e que a equipe de ensino especial das Coordenadorias Regionais de Ensino ‘agem em testagens’ após a matrícula a fim de identificar, caso não relatado durante o processo, a possível deficiência e a melhor forma de atuar com a criança. As avaliações são elaboradas e personalizadas de acordo com a necessidade de cada um, sem prejuízo do conteúdo, mantendo a qualidade do ensino, segundo Viviane. Ela salienta ainda que a integração entre família, saúde, escola e especialistas é fundamental para o desenvolvimento do aluno PcD, entretanto faz-se necessário ampliar e fomentar projetos com parcerias entre docentes e universidades. Afirma também que o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) promove, de forma acompanhada, adequações nas edificações para atender à demanda de acessibilidade. Para ela, precisam ser oferecidos mais espaços e cursos de formação e graduação na educação inclusiva. Reitera a mesma necessidade para o Instituto Helena Antipoff, que é referência na área e já desenvolve esse trabalho junto às Coordenadorias Regionais de Educação (CRE), no âmbito do município do Rio de Janeiro.

 

Raquel Peres, professora de Educação Física

 

“Eu tenho que olhar as potencialidades das pessoas e não para os limites, comuns a todos nós”

                                                                                                                        Raquel Peres

 

Raquel Peres, especialista em docência do Ensino Superior e em Psicomotricidade, Mestra em Abordagens Psicosocioculturais, professora de Educação Física e autora do livro “Imagem Corporal: O que você vê?” confirma que há muitas instituições que são precursoras e ‘divisoras de águas’ no que tange a capacitação de profissionais capazes de mudar esse ciclo. Se todas as crianças e adolescentes convivessem com as que têm deficiência, evitaria, segundo ela, todo o repúdio e olhar discriminatório. Raquel cita um aluno portador de TEA (Transtorno do Espectro Autista), excelente nas provas orais, porém com dificuldade extrema na escrita e a forma encontrada de driblar essa situação foi usar mecanismos lúdicos de avaliação.

 

Criança aplicando os mecanismos lúdicos de avaliação

 

“Eu acredito num professor transformador e mediador”, diz Raquel. Ela alerta que a carga horária dos docentes é pesada e que tempo e dinheiro dificultam a procura pela especialização, mas que muitos concluem sua qualificação em Educação Inclusiva de forma remota.

Outra questão que aborda, diz respeito à importância do esporte como elemento transformador, dada sua capacidade de gerar tanto bem estar físico quanto mental.

Todo o processo de inclusão garante ao aluno PcD o exercício do seu direito constitucional à educação de qualidade e abre um mundo de possibilidades em relação ao seu futuro, enquanto profissional e cidadão. E ainda nessa jornada, está embutido os conceitos de quebra de tabus, desconstrução de preconceitos e todos os gestos de uma sociedade sem qualquer tipo de discriminação.

27 Replies to “Lição de Casa – Inclusão na Educação Especial”

  1. A matéria da minha mãe ficou extraordinária! ❤️ Realmente… não existe jornalista mais criativa, com melhores matérias e palavras, melhores entrevistados e com maior amor e dedicação ao trabalho que nem ela, por isso ficou tão maravilhoso. ❤️

  2. Muito bom esse espaço dado para a notoriedade educacional das crianças e adolescentes portadores de deficiência. Eles precisam muito disso. Parabéns a equipe de jornalismo pela excelente matéria.👏👏

  3. Muito bom esse espaço dado para as crianças e adolescentes portadores de deficiência. Eles precisam muito disso. Parabéns pela excelente matéria.👏😘

  4. Parabenizar a todos e todas as pessoas envolvidas neste processo e que conseguem realizar grandes feitos para Educação( pois na maioria das vezes não tem Ibope e lutam sozinhos ( pais, responsáveis e profissionais de Educação) Geralmente, esbarram na solidão/ no silêncio durante a caminhada).
    Parabenizar pela matéria tão relevante em nosso sistema educacional, e que precisa ser mais discutida , ter visibilidade para fazer valer as Leis vigentes. E que o fazer pedagógico seja consistente e ativo. Parabéns aos profissionais que com propriedade e conhecimento tem feito a diferença na vida dessas crianças, jovens e adultos. E que promovem as potencialidades deles. E ainda que lutam contra o preconceito e tão somente por uma Educação inclusiva de verdade.

  5. Que bom saber que algumas coisas são feitas pelo Estado para as pessoas portadoras de deficiência! A inclusão deve sempre ser incentivada! Parabéns pela matéria!

  6. Parabéns 👏🏽👏🏽👏🏽Este assunto é de extrema urgência e realmente é necessário voltar o olhar e reestruturar a política de educação 👏🏽👏🏽👏🏽

  7. Que matéria incrível, um assunto extremamente necessário para a sociedade e uma ótima colocação! Parabéns a Jornalista Fabíola e todos envolvidos.

  8. Que matéria incrível! Abordagem perfeita e muito esclarecedora sobre o suporte que a rede pública dá para crianças e adolescentes PcD.
    Parabéns Fabíola e toda equipe!

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